#meuamigosecreto: sobre feminismo, memes e o poder das redes sociais

“#meuamigosecreto‬ é contra o aborto, mas só quer transar sem camisinha, mal olha na cara do filho que fez, deixou a mãe criar sozinho e ainda por cima se recusa a pagar pensão”, “#meuamigosecreto adora cantar e fazer piadinhas com as meninas na rua, mas fica extremamente ofendido se um homossexual lança olhares para ele”, “#meuamigosecreto‬ acha vulgar e pouco feminino mulher falar palavrão. Só digo uma coisa: fod*-**.”

Essas foram apenas algumas das milhares de confissões manifestadas por mulheres na campanha #meuamigosecreto, viralizada nas redes sociais desde o dia 23 de novembro. Inspirada na tradicional brincadeira de “amigo oculto” típica das festas de fim de ano, a campanha, encabeçada por mulheres, teve como objetivo apontar e denunciar práticas machistas do cotidiano, que partem, muitas vezes, de amigos, namorados e homens próximos.

Muitas das mensagens explicitam condutas do dia a dia que foram naturalizadas e estão presentes nas relações mais intimas, mas há também relatos mais graves, de casos de abusos e assédio, semelhantes aos compartilhados em uma outra campanha feminista recente: #meuprimeiroassédio, criada pela ong Think Olga, em outubro desse ano após comentários maldosos sobre uma participante da versão infantil do programa Master Chef.

“Por muitas vezes nos pegamos percebendo que nosso melhor amigo se diz ‘não machista’, ‘não homofóbico’, ‘não racista’ e acaba tendo atitudes nada louváveis. Talvez neste momento, com tantos shares sobre tais situações, a pessoa se toque e comece a perceber que ainda pode ser doutrinada a viver numa sociedade onde o respeito e amor possam valer acima de tudo”, informava um post publicado no Facebook pela fanpage criada para difundir a campanha.

Mas o que isso realmente importa? O que a hashtag representa? A campanha #meuamigosecreto pode ser considerada um meme? Comecemos pelo princípio… Como já tratamos em outro momento, um meme não se constitui como tal apenas pelo seu caráter viral. O meme pode ser entendido como algo que, além de se espalhar, ganha versões, e tem o seu significado alterado, reapropriado. Diferentemente do viral, que compreende uma unidade cultural propagada na web, o meme é sempre carregado de sentidos e referências.

Nada mais apropriado, portanto, para conceituar a tag, do que entendê-la como meme, afinal, além de muito repercutida, ela foi apropriada e ressignificada inúmeras vezes pelos usuários. A escritora israelense e pesquisadora Limor Shifman (2014) define esse tipo de meme como “meme de ação popular”. Para ela, ações como #meuamigosecreto e #meuprimeiroassédio são dotadas de uma capacidade persuasiva que se caracteriza por ser uma construção coletiva de sentido, mobilizando o cidadão comum. Sendo assim, se constituem como influenciadores de comportamentos, fazendo com os outros usuários também queiram se engajar e replicar tais condutas.

É bem verdade que olhar para esses episódios como memes nos impõe uma visão diferenciada sobre o que é um meme de internet. Como também já abordado anteriormente no #MUSEUdeMEMES, o meme não precisa ser engraçado ou divertido, ele pode ser visto também como ação coletiva e emergente, espontânea ou não.

No entanto, como era de se esperar, a reação à campanha despertou comentários negativos (de homens e mulheres), que afirmaram que o emprego da hashtag não passava de “modinha” ou “falta do que fazer”. Alguns argumentaram ainda que não traria nenhum resultado concreto. O que fica claro nesse tipo de pensamento é que as pessoas não sabem (ou preferem ignorar) o fato de que política ‐ e, nesse caso, me refiro à política em sentido mais amplo ‐ é construção simbólica. Decisões políticas, sejam elas na forma de legislação ou políticas públicas, não são tomadas da noite para o dia, e necessitam, muitas vezes, de mobilização e pressão popular para sair do papel.
 
 

Mídia, Internet e Circulação de Informações

Conforme apontado na pesquisa TIC Domicílios do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.BR) sobre o acesso e uso das tecnologias de informação e comunicação, o uso da internet e das redes sociais vêm crescendo ano após ano. Em 2014, os dados referentes ao acesso domiciliar à internet passaram a considerar todas as formas de acesso declaradas pelos moradores, sem excluir domicílios em que o acesso estivesse disponível apenas pelo telefone celular. Assim, a TIC Domicílios 2014 aponta que metade (50%) dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet, o que representa cerca de 32,3 milhões de residências ‐ uma variação de sete pontos percentuais em relação a 2013. Em 2012, esse número era menor ainda, e contava com apenas 40% de pessoas conectadas. Ou seja, embora ainda seja um número relativamente baixo, principalmente se comparado a outros países, o que se nota é que cada vez mais as pessoas utilizam as redes sociais para se comunicar e interagir com os amigos e familiares. Obviamente esse aumento também impacta diretamente em questões como o acesso à informação e a participação política de forma geral.

Conforme, Aldé & Borges (2004), os jornalistas, atores influentes na produção do noticiário, e consequentemente na produção simbólica das culturas políticas, recorrem crescentemente à internet como fonte de informação, o que torna a rede um novo campo de disputa política.

Nesse sentido, os próprios meios de comunicação também precisam se reinventar, incorporando conteúdos e práticas dos novos meios para sobreviverem. E, se por muito tempo, os mass media estabeleceram (ou foram um dos principais agentes a estabelecer) a pauta das discussões que permeiam o cotidiano do cidadão, a popularização da web despontou como alternativa a essa centralidade01.

Como se viu, a campanha #meuamigosecreto ocorreu de forma espontânea, difundida principalmente através de internautas mulheres, e amplamente divulgada, tanto nos sites de redes sociais quanto em diversos outros sites e portais de notícias. A viralização da campanha facilitou a reapropriação por outros usuários da internet, o que por vezes desvirtuou-se da ideia original. Apesar disso, a iniciativa recebeu grande adesão e foi destaque em matérias não só na internet, como também no noticiário da TV e do rádio02. Até mesmo algumas marcas embarcaram na campanha: a página da Universal Pictures Brasil no Facebook, por exemplo, surfou nessa onda, e utilizou a campanha como pano de fundo para divulgar o filme “As Sufragistas”03. A revista Elle Brasil, direcionada ao público feminino, também mergulhou de cabeça na ação e anunciou quatro capas para o mês dezembro com as chamadas principais: “Meu corpo minhas regras”, “Vestida ou pela quero ser respeitada”, “Mexeu com uma, mexeu com todas” e “Minha roupa não é um convite”.

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Ademais, é preciso registrar que o tema feminismo está em alta. Além das campanhas, o assunto foi mote da última redação do Exame Nacional do Ensino Médio, e também objeto de manifestações em diversas capitais do país, quando inúmeras mulheres foram às ruas contra o Projeto de Lei nº 5069 (que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte), proposto pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMBD-RJ).

Diante de toda essa mobilização, é possível falar então em resultados? Não dá para saber exatamente quais são as consequências exatas e imediatas desse tipo de ação, mas o índice de denúncias de agressões domésticas feitas por mulheres subiu 40% de janeiro a outubro de 2015, se comparado com o mesmo período em 2014. O que é preciso pontuar aqui, portanto, é que todo esse debate e a visibilidade à pauta advinda dele têm contribuído para que mais e mais mulheres tenham coragem e tomem alguma atitude frente a seus agressores. Como já citado anteriormente, o quão efetivas são campanhas online como estas ainda é bem difícil de mensurar isoladamente, mas o que sabemos é que, nesse caso, estas iniciativas estão agindo sobre a realidade, criando novos discursos e suscitando debates importantes para a sociedade.

Entender a campanha como meme e admitir sua importância enquanto elemento de uma nova forma de consumir e gerar mídia é reconhecer que, na era digital, “fazer política” está cada vez mais atrelado a estar atento a essas trocas interpessoais tecidas nas redes sociais e suas consequências.

Negar essas condutas, muitas vezes consideradas banais, é reduzir parte da cultura política dos dias atuais. Afinal, política não é só o mandato, as eleições ou o que se vê o noticiário dos grandes jornais. Política também está relacionada, às demandas de diferentes grupos de interesse por representatividade, isto é, ao acumulado de relações simbólicas, advindas dos procedimentos relativos a articulações de entidades privadas na esfera pública, e seus efeitos.
 
 
Referências Bibliográficas

ALDÉ, Alessandra e BORGES, Juliano. Internet, imprensa e as eleições de 2002: pautando notícias em tempo real. Logos – Revista da Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Rio de Janeiro, n. 21, 2004.

LIPPMANN, W. Opinião pública. Petrópolis (Rio de Janeiro): Vozes, 2008 [1922].

SHIFMAN, Limor. Memes in a Digital Culture. The MIT Press Essential Knowledge series.

TRAQUINA, N. O paradigma do agenda-setting: redescoberta do poder jornalístico. Revista de Comunicação e Linguagens, n. 21/22.

 

Fernanda Desastre
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About / Bio
Fernanda Desastre é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj e jornalista graduada pela mesma instituição. Sua pesquisa investiga memes de internet e a relação entre humor e política. Desistiu do jornalismo porque era muito desastrada, e resolveu tacar fogo na academia só para poder soltar seu sorrisinho maligno no fim.
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Sobre Fernanda Desastre

Fernanda Desastre é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj e jornalista graduada pela mesma instituição. Sua pesquisa investiga memes de internet e a relação entre humor e política. Desistiu do jornalismo porque era muito desastrada, e resolveu tacar fogo na academia só para poder soltar seu sorrisinho maligno no fim. <!-- [email protected] -->