A Era Pré-Internet: uma breve reflexão sobre memes e jingles políticos

Antes da internet já existiam os memes? Essa é uma dúvida muito comum, principalmente de pessoas que se deparam, cada vez mais, com esse boom de conteúdos que circula rotineiramente pela web. Na realidade, antes de dar uma resposta precisa para a pergunta, é necessário entender melhor o que são memes e sob que lógica operam.

Baseando-nos na definição cunhada por Shifman (2014), meme é sempre um conjunto (ou um acervo) de conteúdos, isto é, um meme não é uma unidade isolada, mas um contexto. O meme pode ser visto ainda como algo que, além de se espalhar, ganha versões e tem o seu significado alterado, reapropriado. Diferente do viral, que compreende uma unidade cultural propagada na web, o meme é sempre carregado de sentidos e referências. Outra interpretação pertinente sobre memes é a de que estes podem ser compreendidos como um novo gênero midiático ou como nova linguagem, que requer uma certa experiência de letramento, como sugerem Knobel e Lankshear.

Sabemos que com o advento da internet esses conteúdos se transformam e ganham visibilidade de forma muito mais intensa. O que dizer então dos bordões de novelas ou dos modismos que viram “tendência”, como usar a calça com uma parte da cueca aparecendo01? Sim, esses tipos de comportamento, replicados e reapropriados pelas pessoas, sempre existiram e podem ser considerados um tipo de meme anterior à web. E os jingles? Onde entram nisso?

Feitos para serem memorizados pelos eleitores com facilidade, os jingles se caracterizam por mensagens curtas e de linguagem simples. Como afirma Lourenço (2009), o jingle é usado, muitas vezes, como elemento de síntese tanto da imagem do candidato, de suas virtudes e pontos fortes, como de suas propostas, através de uma linguagem francamente emotiva, que reforce estes pontos, tentando fixar no eleitor uma ideia-chave, um conceito sobre a candidatura.

Nesse sentido, essas mensagens faladas ou cantadas se constituem como conteúdos de fácil assimilação (Siegel, 1992), sendo vistos como elementos pertencentes à cultura e que, muitas vezes, ficam marcados na memória, chegando a ser reapropriados e reutilizados de diversas formas. Essa assertiva pode ser comprovada ao mostrar que o famoso jingle “Ey, Ey, Ey-mael”, composto há mais de 30 anos, é um dos mais (re)conhecidos até hoje. Em 2014, a peça ganhou até uma nova versão, bem parecida com a anterior, mas com algumas modificações na letra original. Antes disso, o candidato já havia dado diferentes roupagens ao tema musical, que surgiu originalmente como marchinha. Do axé da Bahia até a chula gaúcha, a letra foi gravada em diversos ritmos, em 2010.

eymael-jingle

De acordo com informações do Partido Social Democrata Cristão (PSDC), somente em 2010, ano em que as versões foram gravadas, os arquivos foram baixados quase 7 mil vezes. No YouTube, a versão original tem ainda mais acessos, mais de 126 mil visualizações. E, claro, o sucesso que acompanha o político democrata cristão também virou motivo de piadas nas redes02.

Nota-se então o forte caráter viral presente no jingle. Como já mencionado anteriormente, embora memes e virais não sejam a mesma coisa, conteúdos puramente virais, na era digital, são cada vez mais difíceis de existir. Segundo Shifman (2014, p. 58), “uma vez que uma foto ou um vídeo atingem certo grau de popularidade na web, você pode apostar que alguém, em algum lugar, vai alterá-lo”.

Outro jingle muito famoso que perdurou durante muitas eleições foi o “Lula lá”. Criado em 1989, durante a primeira eleição com voto direto desde 1960, a canção foi o hino do candidato petista por 13 anos (entre 89 e 2002), quando Lula conquistou o cargo de presidente da República. E até a presidenta Dilma Rousseff ganhou a versão “Dilma lá” para a sua candidatura em 201003.

Assim como os memes, o poder de persuasão dos jingles é um tema ainda controverso. Não é possível afirmar que esses conteúdos sejam capazes de alterar, de fato, a opinião pública sobre algum candidato ou partido, mas a retórica sedutora mostra que esses conteúdos, muitas vezes, apelam para as emoções dos eleitores, servindo como atalhos cognitivos na hora da escolha do candidato (Popkin, 1991). De acordo com Lourenço (2005), os jingles, de forma geral, embora peças publicitárias com o objetivo de reforçar preferências e promover produtos/pessoas, também podem retratar contextos sociais importantes e revelar muito da sociedade na qual se inserem.

Assim, é possível relacionar a atuação de memes de internet com os jingles e bordões. Um exemplo recente foi o caso dos memes da então candidata à reeleição na época, Dilma Rousseff, que traziam a frase “Mamãe ama vocês. Vlws, flws”. Embora as imagens em sequência servissem para diferentes abordagens e temáticas, a frase final era usada repetidamente como forma de gerar empatia com o público em geral, tendo sido empregada exaustivamente pela página de humor Dilma Bolada e pela própria página oficial da presidenta. Mesclando humor, cultura popular e mensagens curtas, estes memes atuaram como ferramentas de propaganda política, valorizando qualidades da presidenta e até atacando outros candidatos. Com efeito, defendemos que esses tipos de conteúdos se caracterizam como uma forma equivalente aos já conhecidos jingles eleitorais.

Vale ressaltar que embora, o humor seja um artifício muito comum aos memes, nem todos os memes são engraçados. No entanto, argumentamos que o humor cumpre um papel fundamental na relação entre memes e jingles. Afinal, ainda que o humor possa ser visto como elemento de crítica, ele, muitas vezes, é utilizado como instrumento para atingir outros objetivos, como, por exemplo, a propaganda política. É o caso de vários memes estrategicamente construídos e reproduzidos por militantes ou pelo próprio comando de campanha dos candidatos, mas que utilizam o humor para ganhar a adesão de outros eleitores, sem declarar, muitas vezes, que estão fazendo campanha política.

Seguindo a analogia entre memes e jingles, podemos encontrar outras características semelhantes como a capacidade de se espalhar com facilidade, linguagem apelativa ‐ seja ela de humor, drama ou outros gêneros ‐, além da capacidade de apropriação e re-apropriação pelos usuários. Compreender jingles e bordões como tipos de memes na era pré-internet não é reduzir sua importância, mas reconhecer que eles são fenômenos pertencentes à cultura popular e que por seu potencial viral, acabam atingindo muitas pessoas e sendo (re)construídos de forma coletiva.

Referências bibliográficas

KNOBEL, M.; LANKSHEAR, C. Online memes affinities and cultural production. In: KNOBEL, M.; LANKSHEAR, C. A new literacies sampler. Nova Iorque: Peter Lang, 2007.

LOURENÇO, Luiz Cláudio. Jingles Políticos: estratégia, cultura e memória nas eleições brasileiras. AURORA: Revista digital de Arte, Mídia e Política, v. v1, p. 203- 216, 2009.

POPKIN, S. L. The Reasoning Voter: Communication and Persuasion in Presidential Campaigns. Chicago: University of Chicago Press, 1991.

SHIFMAN, Limor (2014). Memes in a Digital Culture. The MIT Press Essential Knowledge series.

SIEGEL, Bruce H. (1992) Creative radio prodution. Boston: Focal Press.

 

Fernanda Desastre
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Fernanda Desastre é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj e jornalista graduada pela mesma instituição. Sua pesquisa investiga memes de internet e a relação entre humor e política. Desistiu do jornalismo porque era muito desastrada, e resolveu tacar fogo na academia só para poder soltar seu sorrisinho maligno no fim.
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Sobre Fernanda Desastre

Fernanda Desastre é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj e jornalista graduada pela mesma instituição. Sua pesquisa investiga memes de internet e a relação entre humor e política. Desistiu do jornalismo porque era muito desastrada, e resolveu tacar fogo na academia só para poder soltar seu sorrisinho maligno no fim. <!-- [email protected] -->