Quando o viral vira meme: a propagação do coronavírus na internet

Uma das atividades mais gratificantes do #MUSEUdeMEMES é a realização de oficinas para os mais variados públicos. Já apresentamos o nosso assunto favorito a comunicólogos, educadores, curiosos, crianças e adolescentes, para citar apenas alguns perfis. Nesses encontros, um tópico recorrente é a diferenciação entre os conceitos de viral e de meme, que acabam confundindo muita gente. Para explicar, costumamos usar o exemplo das doenças virais e descrevemos como uma gripe se espalha pela sociedade. Apesar de ser transmitida para milhares de pessoas, ela continua sendo aquela mesma gripe. Já um meme, por sua vez, pode ser definido como a família das variantes de uma ideia original que é apropriada e passa por transformações constantes enquanto avança pela sociedade.

 

Evidentemente, essa é uma definição um tanto simplista, mas bastante válida quando estamos apresentando o universo dos memes studies aos novatos. Como o conceito de “meme” nasceu de um biológo, não chega a surpreender que as analogias com a Biologia funcionem tão bem. E como os conteúdos virais são naturalmente envolventes e engajantes, as versões alternativas não tardam a aparecer. Por isso, costuma ser uma questão de tempo para que um viral se transforme em meme. E, com o coronavírus, não poderia ser diferente.

 

Nas últimas semanas, a multiplicação dos casos de COVID-19 em escala mundial foi acompanhada pelo seu crescente protagonismo nas mídias e nas conversas informais. Natural. Estamos lidando com um vírus de rápida disseminação e que está ceifando milhares de vidas mundo afora. Nesse cenário, a população demanda esclarecimentos, orientações e atualizações. Estamos preocupados e só se fala nisso. A garantia de público é um grande motivador dos mememakers, que provavelmente nunca se viram diante de uma potencial audiência de tamanha magnitude. Como resistir? Muitos estão ociosos durante a quarentena e precisam desesperadamente de algo para fazer. Ideias borbulham e os memes se espalham.

 

Em “O Riso”, Bergson chama atenção para a função pedagógica da comédia. Para o filósofo, o riso é um fenômeno social que serve para punir comportamentos desviantes e pressionar seus responsáveis a retomar os padrões socialmente aceitos. Em geral, os comportamentos desviantes risíveis contam com algum componente de rigidez que contraria a mobilidade natural da vida. Esse tipo de rigidez mecânica pode ser encontrada em opiniões irracionalmente inflexíveis, em gestos automáticos, em hábitos repetitivos, na coisificação de pessoas, em situações tão artificiais que parecem sem vida e em manipulações da língua que contrariem o dinamismo regido pelo bom senso. Isso ajuda a explicar a profusão dos mais variados memes focados na prevenção contra o coronavírus. Como dependemos do esforço coletivo para reduzir a proporção da tragédia, todo desvio inconsequente precisa ser contido em caráter emergencial. E, quando as recomendações de especialistas, as leis e o bom senso falham, ainda podemos pressionar os mais inconsequentes através da ridicularização.

 

Um outro aspecto interessante do riso, apontado por Bergson, é o distanciamento emocional. Só conseguimos rir de um assunto tão sério quanto uma pandemia com milhares de vítimas fatais porque conseguimos nos distanciar dela ao tratá-la como coisa. Isso acontece porque os objetos sem vida são inerentemente reversíveis, podem ser repetidos indefinidamente e suas partes são intercambiáveis. Não existem emoções no universo das coisas. Portanto, quando nossa imaginação consegue transferir o coronavírus para o âmbito das coisas, a ameaça é anulada e torna-se risível. Mesmo que momentaneamente. Assim, o riso tem o poder de suspender o medo e aliviar a tensão.

 

Felizmente, aprendemos com a ajuda dos memes que o isolamento social é importante para conter a curva de disseminação. Conseguimos explicar isso até aos nossos relutantes idosos, adaptando a mensagem aos formatos que eles respeitam. A capacidade pedagógica dos memes de internet pode até ser limitada em sua profundidade, mas é inquestionável em termos de eficácia. Rir da nossa própria tragédia tem seu valor social. Pelo menos enquanto não somos atingidos. Os memes fazem parte dessa história, conectando-nos em nossos isolamentos, reforçando o nosso senso de comunidade, concedendo pequenos intervalos catárticos à angústia e pressionando os indivíduos mais resistentes a adotar as medidas de segurança necessárias.

 

Enquanto o próximo meme não vem, façamos o possível para que a crise seja atenuada e para que os melhores memes vençam. Permita-se rir, mas com responsabilidade. A propagação on-line não é muito diferente da que temos nas ruas. Por isso, fique em casa, use máscaras, lave as mãos… e compartilhe memes!

 

 

Grumpy Shelly
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About / Bio
Grumpy Shelly é professora da Escola de Comunicação e Design Digital do Instituto Infnet, pesquisadora da Fiocruz e mestra pela Escola de Comunicação da UFRJ, mas também é publicitária, designer, baixista e, sobretudo, catlady. Ela investiga a produção de discursos de verdade na internet, num esforço para tentar entender como tudo ficou tão horrível.
 
 

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Sobre Grumpy Shelly

Grumpy Shelly é professora da Escola de Comunicação e Design Digital do Instituto Infnet, pesquisadora da Fiocruz e mestra pela Escola de Comunicação da UFRJ, mas também é publicitária, designer, baixista e, sobretudo, catlady. Ela investiga a produção de discursos de verdade na internet, num esforço para tentar entender como tudo ficou tão horrível.