Origem

Fazer maratonas assistindo a séries tornou-se um hábito muito difundido entre os usuários da internet, dada a possibilidade de não precisar esperar dias pela exibição dos próximos capítulos do seu programa favorito. No fim da tarde do último dia 20 de agosto, na cidade de Bocaina, em São Paulo, um pequeno estudante de 5 anos, chamado Gabriel Lucca, teve o desejo de não ir à escola no dia seguinte por querer fazer uma maratona da série de animação Caçador de Trolls.

 

Como estratégia o menino escreveu um bilhete para simular o envio de um comunicado da escola sobre a possibilidade de não ter aulas no dia seguinte, pois poderia ser feriado. Endereçou o bilhete aos “senhores paes” e o assinou como “tia Paulinha”, sua professora. Além disso, para dar autenticidade ao comunicado, escreveu: “é verdade esse bilete”.

 

Obviamente, o cuidado do menino ao desenvolver uma estrutura próxima de um comunicado escolar em seu bilhete não enganou sua mãe, Geovana Santos. Surpresa e bem humorada, ela enviou, pelo whatsapp, uma foto do pedaço de folha de caderno (mal cortado, com erros de ortografia, letra mal feita, assinatura curiosa e autenticação mais inusitada ainda) para a professora de seu filho.


A professora, Paula Renata Robardelli, também se surpreendeu com a astúcia do menino. Na manhã de 21 de agosto, o dia seguinte, ela postou em sua conta no Facebook a foto do bilhete e uma legenda que aponta Gabriel como muito jovem leitor e escritor que tentou trollar sua professora e sua mãe. Em seguida, elogia a esperteza da geração do menino e posta um sequência de emoticons que vão gradualmente das reações de raiva para o pavor, passando para o choro triste e, em seguida, para o choro de alegria, finalizando com um olhar apaixonado e um elogio ao menino. Este post viralizou e logo os internautas já criavam seus próprios memes a partir do bilhete de Gabriel.

Gênero & Formatos

O meme tem usos variados e é usado tanto em brincadeiras inofensivas ao redor de temas como bebês fofos e “catioros”, quanto com um tom de debate político e social, podendo ser enquadrado, nesses casos, como um meme de discussão pública sobre temas coletivos. Quanto aos formatos, inicialmente houve a viralização do bilhete de Gabriel que, logo em seguida, deu origem a snowclones (cópias da estrutura do bilhete, onde se varia os elementos articulados por ela).

 

Estes snowclones são tanto postagens de fotos de bilhetes feitos com folhas de caderno, escritos de caneta, com letra irregular para copiar o post original, como também são feitos com mensagens digitadas em posts das redes sociais. Temos ainda alguns jogos em formato de quiz e programas de TV que utilizaram o catchphrase (ou bordão) “é verdade esse bilhete”. Gabriel, sua mãe a sua professora participaram de programas de auditório, noticiários na televisão, em rádios e publicações de revistas e jornais na internet.

 

Ademais, surgiram páginas chamadas “é verdade esse bilete” no Facebook e no Twitter. Anúncios publicitários foram feitos com snowclones do bilhete, além ter sido tema de vídeos de youtubers. Surgiu também um perfil do Gabriel anunciado pela sua mãe no Instagram.

 

Gramática/Sintaxe

A gramática deste meme envolve alguns erros de ortografia para simular a escrita de uma criança em processo de alfabetização, ressaltando a forma fixa “bilete”. Em alguns casos, também vemos a presença do idioleto dos “catioríneos”.

 

Quanto à sintaxe do meme, percebemos uma estrutura que reproduz a do bilhete: destinatário, mensagem, assinatura e o catchphrase “é verdade esse bilete”. Muitos casos começam pela mensagem, em seguida usam opcionalmente uma assinatura e fecham sempre com o catchphrase.

 

Personagens Recorrentes

Encontramos personagens recorrentes como os boletos, o capitalismo, os “catioros” e a figura do macho, por exemplo.

 

Difusão e Repercussão

No dia 23, começam a surgir as primeiras matérias online sobre o meme. Desde então, quase um mês se passou até a redação deste texto e continuam surgindo novas postagens em jornais e revistas online. O Google Trends indica o dia 23 de agosto como momento de surgimento do catchphrase e de aumento da presença do termo “bilete”.

 

Também segundo o Google Trends, os picos do interesse pelo meme até agora foram nos dias 01 de setembro e 09 do mesmo mês. Além de aparições em programas de auditório de exibição nacional (como no Encontro com Fátima Bernardes, onde se discutiu o caso e a Hora do Faro, para o qual Gabriel e sua mãe foram convidados), o meme, Gabriel, sua mãe e sua professora apareceram em jornais locais, pelo menos de emissoras afiliadas à Rede Record e à Rede Globo.


A fama rendeu a Gabriel o prazer de receber um bilhete de seu ídolo do time do São Paulo, o jogador Nenê, e também ser convidado para conhecer o estádio do Morumbi para assistir ao jogo entre Fluminense e São Paulo.


O bilhete virou, inclusive, modelo de um anúncio feito pela Netflix.


O fato é que através de uma brincadeira, mais uma vez, os memes se apresentam como uma forma de posicionar-se sobre diversos temas, como mostram os exemplos notáveis que escolhemos. Nas redes sociais os usuários se dividiram no debate sobre a adequação da atitude branda da mãe e da professora de Gabriel. O que levou a mãe de gabriel a se manifestar em um post em sua página do facebook.


Ambas afirmam terem conversado com o menino sobre a inadequação do seu ato, apesar de relevarem o fato de ser feito por uma criança que só queria ver desenhos. A professora, inclusive, comenta que o bilhete virou objeto de estudo ortográfico, literário e ético na turma do Gabriel.

 

De qualquer forma, a tentativa de trollagem feita através de um comunicado fake para poder fazer maratona de sua série favorita não parece algo muito fora dos padrões sociais que circundam o pequeno estudante, posteriormente conduzido à reflexão sobre temas tão importantes.

 

Exemplos Notáveis

 

 

Mohandas Garoto Cético do Terceiro Mundo
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Mohandas Souza
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Iniciado nos mistérios filosóficos, mestre na arte da dúvida, Mohandas Garoto Cético Do Terceiro Mundo despertou de seu sonho dogmático ao conhecer David Depois Do Dentista e seu estranhamento da vida real na internet. Igual a São Tomé, preferiu ver para crer e buscou contato com estudos da cultura digital na graduação em Estudos de Mídia na UFF. Suspeita (sem ter certeza, é óbvio) que os memes são mais do que uma simples brincadeira digital. Ou não.

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