Como coreografia, o Harlem Shake deriva de uma das vertentes do hip-hop americano, tendo suas raízes no bairro de Harlem em Nova Iorque, popular em 1980. Desde então essa prática se propõe a ser mais do que apenas uma dança, incluindo aí expressões pessoais, de personalidade, liberação de energia, uma espécie de coreografia colaborativa. Culturalmente, chegou-se inclusive a sustentar um movimento chamado Save The Shake, que pretendia resgatar as origens da dança, pois, de acordo com a fala de seus integrantes, o significado da dança acabou sendo esvaziado pela repercussão do meme homônimo e sua reconhecida aleatoriedade coreográfica.

O meme Harlem Shake surgiu primeiro como um vídeo curto, postado no YouTube. O vlogger Filthy Frank publicou o clipe “Do The Harlem Shake” no final de fevereiro de 2013. O vídeo era composto por 4 pessoas fantasiadas dançando de forma aleatória a composição de Baauer. Nos vídeos que se seguiram, podemos perceber a permanência de certos elementos (além da música em si): um dos componentes do grupo mantêm a cabeça coberta; sua duração de 30 segundos; roupas e coreografias inusitadas. No mesmo mês, o usuário “The Sunny Coast Skate” havia publicado uma versão do vídeo, que serviu como estrutura básica para os vídeos posteriores. A inovação de sua versão foi separar o vídeo em dois segmentos, de cerca de 15 segundos cada ‐ onde, no primeiro segmento, um dos componentes dança sozinho, enquanto os outros agem de maneira indiferente ao que acontece. O grito de “Do The Harlem Shake” marca, desde então, o momento em que todos os figurantes começam a dançar também de forma aleatória.

O reconhecimento do potencial do meme, segundo o site YouPix, se dá a partir do momento em que o gerente de tendências do Youtube, Kevin Allocca, relata as métricas de acesso ao clipe, no período de 1º a 11 de fevereiro de 2013. Ele apontava que já havia mais de 12 mil vídeos, chegando até mesmo a 4 mil postagens diárias. Para além do YouTube, as buscas no Google tiveram um crescimento de 669% e mais de 4,5 mil tweets foram postados em poucas horas.

Apesar de nem todo meme ser um viral, o Harlem Shake une as duas características, devido à capacidade de despertar novas apropriações, o que acabou contribuindo para o meme fosse replicado nos mais diferentes contextos. Cada Harlem Shake mantém uma estrutura básica, referente aos primeiros 15 segundos do vídeo, e então é transformado pelos indivíduos, explorando as particularidades do grupo de figurantes que o integra. Essa liberdade coreográfica em muito se assemelha ao movimento dos anos 1980 que lhe empresta o nome.

O fator surpresa se mostra como um dos mais importantes resultados das reapropriações, que vão desde danças submersas (com bicicletas no fundo de uma piscina), a coreografias feitas por soldados noruegueses, passando por uma quantidade enorme de funcionários dançando em escritórios de grandes corporações como forma de demonstrar humor através da quebra de protocolos. Na tentativa de surpreender e obter reações impactantes, cada grupo adere a uma estratégia distinta, incluindo novas fantasias de personagens, pessoas com pouca roupa, movimentos sensuais, objetos cotidianos, entre outras combinações para criar uma atmosfera surreal. A brincadeira se tornou de tal maneira popular, que, mesmo no Brasil, tivemos várias apropriações. Passada a onda inicial, o meme foi também incorporado por outros memes e apareceu em diferentes piadas, como a série de vídeos que ironiza a suposta “ressaca moral” dos participantes de um Harlem Shake, problema psicológico que foi chamado de “Pos Traumatic Harlem Shake Disorder”, cujos sintomas apresentados por “ex-harlem shakers” satirizam a popularidade do meme junto ao comportamento libertário dos participantes dos vídeos.

Os vídeos do “Pos Traumatic Harlem Shake Disorder” chamam atenção para uma questão concernente aos memes de internet e que determina sua curva descendente de repercussão: o ponto de saturação do fenômeno. A sensação de aparente novidade e o potencial de surpresa precisam ser alimentados para equilibrar a “oferta” de vídeos/imagens produzidos e o interesse do público. Mas é comum que, em determinado momento, tais memes alcancem seu ápice de popularidade e comecem a se retrair, pois a mensagem já foi de tal modo difundida, que não consegue mais expandir seu circuito a não ser residualmente.

Para o comentarista Jeff Klima, o Harlem Shake foi dado como morto em março de 2013, não completando nem um mês de sucesso. Cabe problematizar a ideia de “morte” de um meme. Se consideramos memes como modos de produção envolvidos no processo cultural, não podemos afirmar que uma ideia está morta, pois ela pode ser resgatada, receber uma releitura, e outras combinações negociáveis socialmente. Podemos sugerir um período de latência ‐ usando metáforas da biologia que são utilizadas no campo da memética ‐ onde as ideias permanecem no “meme pool” para em outro contexto serem reformuladas.

Uma curiosa releitura do Harlem Shake, por exemplo, originou a adaptação do Hallway Swimming. Este outro meme tem sua origem em um vídeo upado em maio de 2009 e outro em outubro do mesmo ano. Mas a forma final do Hallway Swimming só veio a público a partir de outro vídeo, publicado em abril de 2013 ‐ isto é, após um intervalo temporal de quatro anos entre a primeira postagem e o meme em si. O vídeo original, note-se, é anterior ao Harlem Shake.

* Trabalho apresentado na disciplina “Redes colaborativas e produção cultural” (2013.1) por alunos do curso de Estudos de Mídia.

2 comentários

  1. Ey bOss disse:

    Achei legal citarem que o Filthy Frank fez o primeiro vídeo, muita gente não sabe.

  2. Renato Maia disse:

    segundo

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