Origem

 

Na manhã do dia 09 de Agosto de 2019, quando saia do Palácio da Alvorada em direção a um evento no Clube do Exército, o presidente Jair Bolsonaro respondeu a algumas perguntas de jornalistas sobre agrotóxicos liberados para o uso no agronegócio e sobre a Amazônia. O repórter Fabio Murakawa do Valor Econômico perguntou: “Presidente, é possível crescer com preservação?” Após a resposta afirmativa do presidente, o repórter pergunta como seria possível o crescimento sustentável. Imediatamente Bolsonaro responde: “É só você deixar de comer menos um pouquinho. Tá? Quando se fala por aí em poluição ambiental é só você fazer cocô dia sim, dia não que melhora bastante a nossa vida também. Certo?”.
 
Logo em seguida o presidente fala sobre a necessidade de planejamento familiar frente ao grande crescimento populacional e que “as pessoas que têm mais cultura têm menos filhos”. Regra da qual o próprio Bolsonaro diz ser uma exceção, pois ele tem 5 filhos. Porém, este segundo momento embaraçoso para o presidente chamou menos a atenção do que o primeiro.
 
As costumeiras respostas irônicas, grosseiras, inconsistentes e as fugas de questões importantes por parte de Jair Bolsonaro já geraram diversos memes na internet. Desta vez Bolsonaro inova ao trazer a escatologia para um de seus pronunciamentos públicos como chefe de estado. Assim surge o meme do cocô dia sim, dia não.
 

Difusão e Repercussão

Após a publicação do pronunciamento presidencial do dia 9 de Agosto em sites de notícias, em redes sociais (como WhatsApp, Twitter, Facebook e Instagram) e a viralização do vídeo com o conselho irônico do presidente, notamos grande aumento da presença do termo “cocô” e da expressão “cocô dia sim, dia não” na internet, como aponta o Google Trends.
 

O próprio presidente insistiu em manter o assunto vivo durante alguns dias, pois retornou à referência do “cocô” algumas vezes. No dia 12 de Agosto, durante a cerimônia de inauguração da duplicação de um trecho da rodovia BR-116 em Pelotas no Rio Grande do Sul, Jair Bolsonaro disse que “um cocozinho petrificado de um índio” pode criar laudo ambiental de embargo de uma obra. Neste mesmo pronunciamento, Bolsonaro chamou a pergunta e o jornalista do Valor Econômico de idiotas, disse não ser um “vaselina” para moderar seu discurso e ainda concluiu que “se não é compatível com o presidente, vote em outro em 2022. É muito simples.”

 

Já no dia 14 de Agosto, desta vez no Piauí, o presidente novamente toca publicamente no assunto. Desta vez, num tom demagógico e polarizante, o presidente promete acabar com o “cocô do Brasil. Essa raça de corruptos e comunistas.”

 

Outro caso, foi no dia 19 de Agosto, no Palácio da Alvora, quando questionado sobre a indicação de seu filho Eduardo Bolsonaro à embaixada brasileira em Washington, Jair Bolsonaro responde que tudo é possível e busca uma fuga demagógica em meio a piadas desconexas, quando o tema do cocô é retomado: ” E aí, pessoal, tá fazendo cocô dia sim, dia não? Cuidado, se reclamar eu passo para uma vez na semana, ein! E boto um fiscal na casa de cada um, ein!”. Aos risos e a coros de “Mito! Mito!” este pronunciamento termina.

 

Em Junho, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgou um relatório que aponta aumento acentuado recente do desmatamento na Amazônia. A divulgação destes dados pressionou o presidente Bolsonaro que respondeu chamando os dados de mentirosos e exonerou o diretor do INPE .

 

No dia 05 de Agosto foi divulgado o “Dia do Fogo“. Evento marcado por fazendeiros do Pará para o dia 10 de Agosto como demonstração de trabalho e de apoio ao presidente Bolsonaro. Entre o dia 10 e 11 foram registrados mais de 200 focos de incêndios na região. Nos dias seguintes a região conviveu com uma densa nuvem de fumaça.

 
Na tarde do dia 19 de Agosto, uma nuvem de fuligem escura tomou o céu da cidade de São Paulo. Conforme estudiosos, o fenômeno se deve à chegada de uma frente fria que trouxe fumaça de queimadas na região da Amazônia. Frente às imagens do dia que virou noite, devido à poluição de incêndios florestais a internet questionou o presidente e os seus eleitores se só basta mesmo fazer cocô dia sim, dia não para cuidarmos do meio ambiente.
 
No dia 21 de Agosto, no Palácio da Alvorada, sem provas, o presidente Bolsonaro acusou ONGs de serem responsáveis pelos incêndios e alguns governadores do Norte coniventes com esta tentativa de manchar a imagem do governo federal.
 
Obviamente, o tom inadequado destes pronunciamentos foi exposto e debatido não só pelos memes nas redes sociais, mas também em publicações de notícias, variedades, economia e humor nacionais e internacionais. A revista Valor Econômico publicou o ocorrido com seu repórter Fabio Murakawa, o qual também publicou em sua conta no Twitter o vídeo de sua pergunta sobre desenvolvimento sustentável e a resposta do presidente. A mundialmente conhecida revista de negócios Forbes publicou o artigo de um médico analisando fisiologicamente o “conselho” do cocô dia sim, dia não. A revista Huffpost Brasil também explorou o aspecto alimentar e fisiológico do “conselho” do presidente. A revista Isto É publicou matéria sobre os usos de fezes humanas para geração de energia. O portal UOL publicou uma entrevista do psicanalista Christian Dunker sobre a fixação anal da linguagem de Jair Bolsonaro. O periódico L’hebdo de Charente-Maritime publicou uma charge na qual o presidente Bolsonaro defeca sobre a bandeira do Brasil com a desculpa de que é só dia sim, dia não para preservar o meio ambiente. O humorístico Sensacionalista publicou que o presidente vai fazer dieta e falar dia sim, dia não para diminuir a quantidade de merda que sai de sua cavidade bucal.
 
A constante falta de responsabilidade e de zelo pela dignidade do cargo de presidente por parte de Jair Bolsonaro tem esvaziado sua base de apoio. Essa retórica sem o mínimo de decoro e adequação, no entanto, parece ser estratégica, pois agrada aos eleitores mais fiéis e ainda cria uma cortina de fumaça que encobre assuntos mais importantes (tais quais os índices de desemprego, da violência, de desmatamento ou até questões criminais que envolvem a família do presidente e seus assessores, como o nepotismo, a lavagem de dinheiro e a associação com milícias). Nos vídeos dos pronunciamentos podemos ouvir algumas risadas e gritos de “Mito! Mito!”, mas estes ou fazem parte do grupo de funcionários próximos ou são alguns eleitores que vibram ao ouvirem piadas sobre cocô ou quando o presidente diz que a oposição vai ser varrida do Brasil. Os mitos costumam ser entendidos antropologicamente como um tipo discurso portador de um modelo de comportamento ou entendimento. Após diversas demonstrações de apoio à tortura, de ataques ao processo político democrático e de negar fatos e pesquisas científicas, o presidente revela seu viés escatológico espalhando o “golden shower” e o “cocô dia sim, dia não” pela internet.

 

Gênero e Formatos

Quanto ao seu formato, o meme circulou na internet inicialmente como viral (pela reprodução do trecho da entrevista em questão), como catcphrase (um bordão) nas redes sociais, exploitable (imagens sobrepostas), image macro (imagens com legendas em cima e em baixo) e como publicação de portais de notícias e de humor. Quanto ao seu gênero, este meme pode ser entendido como um meme de discussão publica (pois se insere no fluxo de conversa pública), como um meme que faz piada sobre personagens da política e como um meme com retórica ético/moral.

 

Gramática e Sintaxe

O uso do meme se deu freqüentemente pela comparação das falas de Jair Bolsonaro ao ato de defecar, mas também encontramos associações com o termo “cocômunistas” (também pronunciado pelo presidente Bolsonaro) explorando a paranoia do golpe comunista difundida por Bolsonaro, com o termo “activistas” (em referência ao iogurte de marca com nome semelhante que promete regular o funcionamento intestinal) para brincar com a ideia de um ativismo político frente à recomendação presidencial da continência intestinal e comparações entre a liberdade intestinal nos governos do PT e de Jair Bolsonaro.

 

Personagens Recorrentes

Os personagens recorrentes encontrados são Jair Bolsonaro, Dilma Roussef, Karl Marx, a Chubby Bubble Girl e o garoto prendendo a respiração.

 

Exemplos Notáveis

Mohandas Garoto Cético do Terceiro Mundo
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About / Bio
Iniciado nos mistérios filosóficos, mestre na arte da dúvida, Mohandas Garoto Cético Do Terceiro Mundo despertou de seu sonho dogmático ao conhecer David Depois Do Dentista e seu estranhamento da vida real na internet. Igual a São Tomé, preferiu ver para crer e buscou contato com estudos da cultura digital na graduação em Estudos de Mídia na UFF. Suspeita (sem ter certeza, é óbvio) que os memes são mais do que uma simples brincadeira digital. Ou não.

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