O que são memes?

meme223798Há quem diga que a própria ideia de meme é um meme. E também quem jure de pés juntos que Milhouse, o injustiçado companheiro nerd de Bart Simpson, não é um meme. Memes estão definitivamente na moda. Nós abrimos nossa caixa postal e recebemos uma correntinha de email, acessamos um site de rede social e nos deparamos com uma imagem legendada, dali uns dois minutos chega um vídeo viral. A palavra é um neologismo, o campo de estudos é recente, mas o fenômeno não se circunscreve à cultura do compartilhamento contemporânea. Os memes têm história…

O conceito de meme e o incipiente campo da memética se originam, nas mais diferentes cronologias, a partir de uma discussão controversa da sociobiologia na década de 1970. O termo é empregado pela primeira vez de forma absolutamente despretenciosa e praticamente de relance, como um desvio colateral do argumento a que se propunha o renomado etólogo Richard Dawkins. Em seu livro The Selfish Gene, Dawkins propunha um termo para dar conta dos processos de replicação e evolução cultural que lhe chamaram a atenção quando ele iniciou sua defesa à tese do determinismo genético. Para o pesquisador, assim como os genes eram os principais responsáveis por replicarem o conteúdo geracional na evolução biológica dos organismos vivos, talvez houvesse, ele reconheceu, uma outra unidade de replicação, diferente dos genes, responsável pela seleção e transmissão de conteúdos inscritos em nossa cultura. Dawkins concebe então uma espécie de evolucionismo cultural, que ocorreria em paralelo e em complemento à evolução natural, através de um segundo replicador, diferente dos genes. Não tendo encontrado outro nome mais adequado para batizá-lo, o biólogo adaptou a raiz grega “mimeme” (μίμημα) e criou o termo “meme”, que, é claro, rapidamente viralizou.

milhouse1232931963267Desde pelo menos a década de 1980, autores como a psicóloga britânica Susan Blackmore se encarregaram de atualizar o conceito criado por Dawkins em 1976. Eles desenvolveram e adaptaram a ideia, em anos ainda anteriores à apropriação generalizada da internet, e construíram as bases para o que viria a ser reconhecido anos mais tarde como um campo de estudos, a memética. Pegando emprestada, de modo quase jocoso, a desinência do campo da “genética”, a memética é pouco reconhecida como ramo da pesquisa científica e certamente muito disputada. Sua constituição já é, em si, uma afirmação de seus correligionários sobre a herança determinista. Com a perspectiva do “memetic drive“, por exemplo, Blackmore reforçava sua visão de que os memes não apenas complementavam o trabalho dos genes mas, em muitos sentidos, o originavam. Assim, se pensarmos em memes como o “celibato” ou a “castidade”, perceberíamos como as ideias podem exercer efeitos sobre o ambiente natural. Mas espere aí… Celibato? Castidade? Essas coisas são memes?

Na definição original de Dawkins, memes são ideias que se propagam pela sociedade (nossas redes sociais) e sustentam determinados ritos ou padrões culturais. Tomando isto como base, o “celibato”, a “castidade”, o “racismo” (memes não são sempre bons!), o folclore, a moda, a gastronomia e praticamente tudo o que conhecemos no nosso ambiente cultural são memes. Dos jeans rasgados à tradição de cantar nas festinhas de aniversário “Parabéns a você” (que aliás é uma canção protegida por direito autoral). É claro que há uma série de críticas a esta visão, mas se queremos entender o que é um meme hoje, precisamos, antes de mais nada, compreender que os conceitos também se atualizam, se ressignificam e se subvertem.

Somente a partir de fins da década de 1990 e início da década de 2000 é que os memes como hoje os conhecemos se difundiram na web, especialmente se manifestando como expressões de comunicação que ganhavam as redes sociais online através de uma forma de propagação viral. Isso porque, para Dawkins, os memes atendiam aos princípios gerais da teoria darwiniana. Como os genes, eles disputavam entre si pela própria sobrevivência. A sobrevivência do melhor adaptado. Afinal, os memes dispõem de três características que nos ajudam a reconhecê-los, diria o biólogo: sua longevidade, sua fecundidade e sua fidelidade. Isto é, para que vençam a disputa que os move, eles precisam garantir que sua transmissão ao longo das gerações está assegurada (fecundidade), que cada uma de suas unidades tenha vida longa (longevidade), e que suas cópias sejam as mais perfeitas possíveis (fidelidade), de modo a evitar corruptelas no transcorrer do tempo. Observe que estas características se aplicam também aos genes e a quaisquer outros “replicadores universais”. Pois no fundo, desde muito antes de Dawkins, o estudo sobre estes fenômenos tem se inclinado a ser composto por metáforas biológicas. Ou você nunca se deu conta de que “viralizar” é um processo epidêmico?

i-can-has-cheezburgerMuito antes da criação do termo “meme” e de sua subsequente “memetização”, as ciências sociais já procuravam entender como opera a dinâmica de reprodução social — para utilizar um termo muito caro a um teórico como Bourdieu –, ou ainda, imitação — para ficarmos no conceito cunhado por Tarde. Gabriel Tarde, criminologista da virada do século XIX para o XX, foi um dos primeiros sociólogos a se debruçar sobre o estudo do que ele chamaria de processos de imitação social. Com suas “leis da imitação”, Tarde procurou enxergar a sociedade como um complexo de relações que propagavam determinados comportamentos. Rival de Durkheim, sua sociologia da imitação acabou à sombra das teorias da anomia, mas Tarde ainda hoje é relacionado no panteão dos clássicos fundadores da sociologia. À sua época, as críticas que Tarde recebeu por suas metáforas biológicas — ele gostava, por exemplo, de utilizar a expressão “contágio” — foram, de certo modo, semelhantes ao debate gerado pela defesa apaixonada de Blackmore do campo da memética. Contemporâneo de Tarde, Richard Semon aproximou-se ainda mais, ao utilizar a expressão “Mneme”, cunhada pelo sociólogo Ewald Hering em 1870, para designar a memória social. Mas, naquela época, a expressão não “pegou”. Os memes, diria Susan Blackmore anos mais tarde, disputam entre si pela sua afirmação, de tal modo que ela chega a usar a expressão “meme machines” (ou “máquinas de memes”) para definir a nós, seres humanos. Nós, os meros hospedeiros dos memes.

Mas o quadro se alterou profundamente a partir da entrada em cena de uma nossa conhecida, a internet. Não só os memes foram ressignificados, como seu campo científico se renovou. Até aqui, como lembra a pesquisadora israelense Limor Shifman, consolidavam-se particularmente três correntes de compreensão sobre o fenômeno dos memes. A partir da definição inicial de Dawkins, “uma unidade de transmissão cultural ou uma unidade de imitação”, era possível depreender os memes como equivalentes de ideias (ou conceitos), textos (discursos ou artefatos culturais) ou práticas (rituais). Assim, a primeira dessas correntes, batizada por Shifman de “mentalista”, em que se enquadrava o próprio Dawkins, descrevia os memes como ideias ou peças de informação, singulares (como uma cor, uma sensação) ou complexas (como o conceito de Deus). Em oposição a ela, a corrente “comportamental” propunha que os memes fossem observados como comportamentos particulares ou artefatos culturais, como piadas, rimas, tendências e tradições. Mesclando ambas as compreensões, a abordagem “inclusiva” indicava que memes poderiam corresponder tanto a ideias quanto a padrões estruturais que as originam ou que se propagam como seus efeitos.

Os memes passaram a representar, de modo muito mais objetivo, elementos da cultura popular nos ambientes virtuais. Hoje, memes são um fenômeno típico da internet, e podem se apresentar como imagens legendadas, vídeos virais ou expressões difundidas pelas mídias sociais. Próprios do universo das comunidades virtuais, eles são geralmente compreendidos como conteúdos efêmeros, vulgarmente encarados como “besteirol” passageiro ou “cultura inútil”, fruto de sua utilização da linguagem do humor. E se tornaram alvo de inúmeras campanhas de marketing, cujos analistas rapidamente os identificaram como fundamentais no desenho de estratégias de potencialização do afeto por determinadas marcas. O mercado de bens e serviços passou a explorar memes de forma semelhante à que a indústria cultural já vinha fazendo, desde antes de memes serem conhecidos como memes. Ou não temos músicas-chiclete há muito tempo?

Um dos pesquisadores que se tornaram lugar-comum para tratar desta questão é o repisado papa das novas mídias no programa de Estudos de Mídia Comparada do MIT, Henry Jenkins. Muito além dos seus famosos bordões sobre a “cultura da convergência”, Jenkins foi um dos primeiros acadêmicos a reconhecer os memes como uma dinâmica cultural tipicamente moderna. A cultura do “espalhável” (“spreadable“), ele diz, se opõe à cultura do “grudento” (“sticky“), própria dos meios de massa. Guardadas as devidas proporções, a diferenciação é semelhante à empreendida por Limor Shifman, ao tratar da distinção entre memes e virais. Para ela, os virais são conteúdos produzidos por grandes players e assimilados por usuários de forma massiva, geralmente em ondas que acompanham dinâmicas de compartilhamento. Já os memes não são apenas compartilhados mas reapropriados pelos usuários, de modo que seu conteúdo é remixado antes de ser compartilhado. Na prática, no entanto, virais se convertem rotineiramente em memes e vice-versa.

hipdawkins166ac53d72f3fa9fc6e0574af30fa77032c21b5c992b1e96336f2d99b947cae7A perspectiva de Shifman, entretanto, é interessante não só por diferenciar memes de virais, mas por apresentar uma definição de meme que recupera um argumento originalmente desenvolvido pela memética dos anos 1980 e já esboçado pelo próprio Dawkins: a ideia de que, como os genes, os memes atuam em conjunto, formando cadeias complexas (ou “memeplexos”) de conceitos e comportamentos. Dessa forma, diz Shifman, é impossível traduzir um meme como um conteúdo ou uma peça exclusivamente. LOLcats não são UMA foto de gato, nem My parents are dead é uma única imagem de Batman estapeando Robin e completamente fora de contexto. Memes não são conteúdos individuais e isolados, mas complexos informacionais que só significam em conjunto. Quando um conteúdo sozinho é disseminado, ele, na verdade, não é um meme, mas um viral, argumenta Shifman. Os memes SÃO contexto.

O universo dos memes de internet ainda é pouco difundido no Brasil, muito embora os jovens que fazem uso das mídias sociais convivam intensamente com este fenômeno. Imagens legendadas com figuras da cultura popular como o herói-pícaro Chapolin, fotos de gatos e outros animais, e tirinhas com piadas satíricas, personagens mal-desenhados e linguagem propositadamente repleta de erros ortográficos e gramaticais são alguns dos exemplos possíveis para a presença deste tipo de expressão comunicativa. Há ainda memes mais engajados política e socialmente como é o caso de expressões que se tornaram febre em redes sociais nos anos recentes, como o #forasarney, o #eutenholigaçãocomfreixo, #nãovaitercopa e mesmo o #calabocagalvão. Memes são imagens, comportamentos e até personagens. Basta lembrarmos de personagens como Dilma Bolada, criação do publicitário Jeferson Monteiro. Aliás, os memes podem ou não ter criadores conhecidos. E muitos fazem usos de pessoas ou situações reais para criarem personagens e cenas fictícias.

Os memes são, portanto, uma linguagem que encontra ampla repercussão em ambientes online, mas que é relativamente pouco estudada e pouco compreendida, em especial no cenário da pesquisa científica. Parte deste descaso é fruto de uma equivocada compreensão do fenômeno como pertencente à uma “cultura do besteirol” ou à chamada “cultura inútil”, termos que não reconhecem os memes na plenitude de seu valor cultural, manifestações características da internet mas capazes de influenciar inclusive os meios de comunicação mainstream. Somente reconhecendo, como fazem os pesquisadores Michele Knobel e Colin Lankshear, os memes como uma nova forma de letramento midiático, é que poderemos desvendar suas nuances. Por isso, Shifman adverte: os memes são sempre uma coleção de textos!

Este projeto se propõe, assim, a quebrar esta barreira de preconceitos, discutindo e teorizando a respeito do universo dos memes, e investigando, a partir de uma experiência lúdico-interativa de produção de conteúdo para o acervo deste “webmuseu”, quais os mecanismos de interação através destes memes, qual a motivação dos usuários em produzi-los e compartilhá-los e quais as principais categorias a que se subscrevem estes fenômenos, evidenciando assim uma discussão, no âmbito das teorias da Comunicação, sobre seu papel na formação de identidades e representações coletivas e seu lugar na cultura contemporânea.

meme (uma abreviação do grego μίμημα [míːmɛːma]) · é um fenômeno típico da internet, e pode se apresentar como uma imagem ou analogia, uma frase de efeito, um comportamento difundido, um desafio. memes são geralmente efêmeros mas no #MUSEUdeMEMES eles se tornam memória