O que isto significa em memes? Quando a mídia social se torna parte do acervo do museu

GIFs, memes, hashtags e mídias sociais são ubíquos na vida contemporânea, mas esta cultura digital não está sendo adequadamente refletida em nossos acervos de museus. Mas o que acontece se começarmos a colecioná-los de fato? Qual seria o impacto disso sobre o modo como os museus tradicionalmente gerenciam seus acervos?
 
Antes de abordarmos as tradições de coleção do museu, vamos primeiro olhar para o que estou sugerindo colecionarmos e por quê.
 
As mídias sociais podem ser muitas coisas para muitas pessoas, mas a minha definição favorita atualmente é a da Amelia Wong. Ela simplesmente as descreve como “sites interconectados digitalmente que incentivam e viabilizam a interação social, a comunicação e a troca de informações”. Incentivar e viabilizar a interação social, a comunicação e a troca de informação são princípios muito próximos à missão da maior parte dos museus também – então nós temos algo em comum já desde o princípio.
 
Já foram feitos esforços para testar e entender as maneiras complexas pelas quais podemos preservar as mídias sociais. A Coalizão para a Preservação Digital [Digital Preservation Coalition] fez um comunicado em 2016 oportunamente intitulado Preservando a Mídia Social, que tratava de como as instituições de pesquisa e centros culturais podem preservar os conjuntos de dados das mídias sociais como “registros valiosos da vida contemporânea” e como “insights sobre os comportamentos e interações dos humanos do século XXI”. Entretanto, enquanto o comunicado menciona como um arquivo ou biblioteca podem querer colecionar este material… aquilo que um museu pode querer colecionar foi completamente ignorado.
 

Legenda: Coletar memes em museus / Preservar o patrimônio cultural digital para todos
Crédito: Meme da Oprah feito usando o imgflip.com

Por que um museu deve colecionar as mídias sociais?

Legenda: ‘Tão pq?
Crédito: Meme do ‘y tho’ usando o Papa Leão X (segundo Raphael) por Fernando Botero, 1964

Crédito: GIF do Ed Milliband

Legenda: Francesk Mann, a bailarina polonesa, que, enquanto era levada à câmara de gás, roubou a arma de um guarda nazista, atirou nele para matar, e começou um levante feminista que deu esperança a todos os prisioneiros de Auschwitz que tinham a morte como certa
Crédito: Tweet-resposta de @moviehistories para o tweet de @xnulz sobre a Taylor Swift

Qual é a diferença entre um arquivo ou biblioteca colecionando conjuntos de dados das mídias sociais e um museu colecionando as mídias digitais?
 
Eu chego a esta questão partindo do ângulo de um ex-curador e diretor de acervos. Embora seja evidentemente relevante, não estou interessado em como conjuntos de dados de anos podem ser coletados do Twitter (a Biblioteca do Congresso já está enfrentando isto [N.E.: Na verdade, a Library of Congress deixou de armazenar os tweets em 2018, dado o volume de dados, e passou a coletar conteúdos seletivamente.]) ou o que foram os tweets do Governo Britânico nos últimos três anos (The National Archive documenta isso).
 
Estou interessado em qual história um GIF de Ed Milliband olhando desajeitadamente (ou talvez sedutoramente?) para uma câmera pode nos contar acerca do impacto das mídias sociais sobre a forma como as pessoas se relacionam com os políticos (este GIF em referência especificamente ao fenômeno do Milifandom da eleição geral de 2015).
 
Ou como um tweet que pergunta se há alguma “mulher mais durona” do que a Taylor Swift iniciou uma onda impressionante de tweets em resposta, citando mulheres excepcionais da História, e contando suas histórias no formato de 140/280 caracteres.

Com isso em mente, as categorias mais amplas dos objetos das mídias sociais que estou interessado em examinar incluem:

Memes

Legenda: Quando a garota que você gosta diz que é vegana
Crédito: Meme de Arte Clássica (usando Vertumnus, por Guiseppe Arcimboldo, 1590–91)

GIFs

Crédito: GIF de avião (1987), acredita-se ser o primeiro do seu tipo

Crédito: GIF do gato High-five

Fotografia social digital

Crédito: ‘Groupie’ da saída da família, cortesia de Jessica Rees

Legenda: Quem sabia que Darwin tinha um polvo de estimação e ele está no acervo do @NHM_London!? Muito legal! #Aovivoeemcores
Crédito: Tweet por @arranjrees do polvo de estimação de Darwin no acervo do Natural History Museum

Termo emprestado do excitante projeto de pesquisa Collecting Social Photo.
 

Publicações individuais nas mídias sociais

Crédito: Evento do Facebook Correndo Através de um Campo de Trigo (‘Running Through A Field of Wheat’)

Legenda: Apague sua conta. (Em resposta a:) Obama acaba de endossar a Hillary Desonesta. Ele quer mais quatro anos de Obama – mas ninguém mais quer!
Crédito: Tweet de Hillary Clinton em resposta a um de Donald Trump

Materiais culturais digitais como estes estão constantemente em risco. Tendemos a não lhes atribuir o mesmo valor que damos a objetos tangíveis/físicos. Quando o Yahoo fechou o GeoCities, quase sem avisar, preservadores digitais descreveram isto como:
 

“destruir a maior quantidade de história na menor quantidade de tempo… dos registros conhecidos. Milhares de arquivos, contas de usuários, tudo se foi.”
https://www.archiveteam.org/index.php/GeoCities

Legenda: Não se pode simplesmente / Clicar com o botão direito e salvar
Crédito: Um meme ‘não se pode simplesmente’ (‘one does not simply’ ) feito usando o imgflip.com

Legenda: Tão imaterial / Não físico / Uau digital!? / Como catalogar?
Crédito: Meme Doge feito usando o imgflip.com

Coletar este material não é responsabilidade de um museu? Não se trata de interpretar a história de como vivemos nossas vidas hoje e guardar um pouco de nossas vidas contemporâneas para as gerações futuras?
 
Digamos que todos concordem e que os museus vão começar a colecionar objetos de mídias sociais de agora em diante. Como faremos isto?
 
Nossos padrões existentes suportam isso? As estruturas organizacionais dos museus dão conta disso facilmente?
 
Embora eu não seja um fã de complicar demasiadamente os assuntos… simplesmente clicar com o botão direito em um arquivo e salvá-lo não vai ser suficiente (mesmo que digamos que é uma “coleta de campo”).
 
Isto poderia levar a todo tipo de questões sobre a qualidade da imagem, metadados, propriedade e direitos autorais. A pessoa que tweetou isto é o proprietário? De acordo com o Twitter os usuários são proprietários de suas próprias publicações (embora o Twitter tenha a permissão para fazer o que bem quiser com elas também) e todo ônus recai sobre eles no que diz respeito a assuntos de propriedade e direitos autorais. O Usuário precisa estar envolvido em qualquer aquisição e o museu pode precisar reconsiderar o seu entendimento sobre a propriedade no mundo de compartilhamento participativo das mídias sociais.
 
Como pode um objeto das mídias sociais ser mostrado em contexto? Se um museu coleta um meme que foi tweetado e obteve mais de 25 mil retweets – o contexto desses retweets é perdido, e, junto com isto, perdem-se informações importantes que poderiam demonstrar o quão significante este meme era. Uma captura de tela só mostra um retrato no tempo e não faz jus à situação na qual as pessoas primeiramente encontraram o meme. O Webrecorder do Rhizome oferece um meio potencial de coletar objetos das mídias sociais e revisitá-los de um jeito autêntico – gravando hiperlinks e replicando as experiências do navegador e da linha do tempo, mas isto ainda vai continuar sendo somente um retrato no tempo. A publicação da mídia social vai continuar vivendo “na natureza selvagem” apesar de ter sido coletada pelo museu.
 
O que acontece quando já tivermos de fato coletado o objeto? Como catalogamos estes itens? Usando padrões existentes, podemos precisar gravar o material ou descrevê-lo fisicamente. Qual é a descrição física de um meme doge?

Crédito: http://knowyourmeme.com/memes/nyan-cat-pop-tart-cat

Websites como o KnowYourMeme estão dando seus próprios passos para registrar a origem de memes e GIFs  —  já estaria acontecendo fora das nossas instituições de memória o melhor trabalho de registro de nossa herança cultural digital?
 

Não fique atormentado – não há só más notícias

 
Há alguns trabalhos promissores acontecendo em nossos museus. Os exemplos seguintes mostram onde a mídia social tem sido usada numa variedade de diferentes maneiras – quase como se ela pudesse ser parte do acervo em si…
 

A mídia social como uma mostra interativa
Pulse — Museum of London

Crédito: © Museum of London / Tekja https://www.museumoflondon.org.uk/discover/pulse-capturing-londons-thoughts

Esta mostra no Museum of London foi criada por Tekja e monitora constantemente o Twitter na Grande Londres para mapear os níveis de felicidade, os trending topics e o uso de emojis. Os visitantes podem interagir diretamente com a mostra através de tweets com uma hashtag ou somente observar enquanto o atual humor de Londres é interpretado através de emojis.

Mídia social como arte
Excellence & Perfections — Amalia Ulman

Amalia Ulman, Excellences & Perfections (Atualização do Instagram, 05/09/2014), 2014 (Crédito: Amalia Ulman/Arcadia Missa) https://www.instagram.com/amaliaulman/?hl=en

Amalia Ulman criou uma obra performática em três partes, durante cinco meses, que explorou como as mulheres apresentam a si mesmas online. Na publicação final do projeto, em 19 de Setembro de 2014, Ulman tinha conseguido 88.906 seguidores. Somente neste momento ela revelou que a situação toda tinha sido uma performance, uma obra de arte, ao invés de um registro da vida real.
 
A obra foi exibida uma série de vezes. Online através do New Museum, em Nova Iorque assim como também em espaços de galerias físicas na Electronic Superhighway (2016) na Whitechapel Gallery e Performing for the Camera (2016) na Tate Modern.

Conteúdo de mídia social em mostra
The Reaction GIF: Moving Image as Gesture — Museum of the Moving Image, New York

Crédito: © Jason Eppink — https://jasoneppink.com/the-reaction-gif-moving-image-as-gesture/

Mídia social em diferentes mídias
The Donald J.Trump Presidential Twitter Library — The Daily Show

Embora não seja tecnicamente uma mostra de museu, não pude resistir em mostrar como, com um pouco de imaginação, o Daily Show conseguir fazer uma exposição usando somente o conteúdo do Twitter de um único usuário como fonte de sua inspiração. O vídeo inserido tem somente um minuto e 36 segundos, mas dá uma visão mais ampliada do que pode ser feito no espaço físico de uma galeria com publicações do Twitter.
  
Desde 21 de fevereiro de 2018, uma visita online à exposição está disponível.

O que vem em seguida?

Colecionar conteúdo de mídias sociais como objetos de museu é importante para preservar nossa herança cultural digital. Embora muitos museus tenham colecionado objetos digitais, os padrões e os melhores exemplos práticos simplesmente não existem. Podemos ver, pelos casos acima, que o conteúdo das mídias sociais está começando a se espalhar dentro do museu como um conteúdo digno de ser exibido. Entretanto, ainda há muito trabalho para ser feito na remoção da barreira conceitual que existe entre muitos curadores e os objetos digitais. Enquanto esta obra acontece, precisamos pensar sobre o futuro e estabelecer referências de trabalho apropriadas que sustentem estes objetos como e quando eles entrarem em coleções de museus. Tradições de gerenciamento de acervos físicos construídas sobre a organização e preservação de objetos físicos ainda podem ser utilizáveis, mas não sem esclarecer os casos dos usos, as terminologias relevantes e a expertise para entender do que um objeto digital é feito.
 
Minha pesquisa de doutorado examina como o padrão existente de gerenciamento dos acervos de museus pode ser aplicado de forma bem sucedida a objetos digitais, usando o conteúdo de mídias sociais como o caso de uso primário. Se você está interessado ou trabalha com estes temas, eu adoraria saber sobre você…
 
 
 
* Este artigo é baseado numa palestra dada no MCNx London, em fevereiro de 2018, posteriormente publicada no MuseumID, e traduzida, com autorização do autor, para publicação no #MUSEUdeMEMES. A tradução do inglês foi realizada por Mohandas Souza.


Arran Rees
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About / Bio
Arran Rees é doutorando na School of Fine Art, History of Art and Cultural Studies da University of Leeds. Antes de iniciar seu PhD, ele trabalhou como gestor de coleções e curador no Victoria & Albert Museum, no Cardiff Story Museum e no Royal Mint Museum, tendo interesse em coleções digitais e contemporâneas, e nos padrões de gestão e preservação dessas coleções.


Mohandas Garoto Cético do Terceiro Mundo
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Iniciado nos mistérios filosóficos, mestre na arte da dúvida, Mohandas Garoto Cético Do Terceiro Mundo despertou de seu sonho dogmático ao conhecer David Depois Do Dentista e seu estranhamento da vida real na internet. Igual a São Tomé, preferiu ver para crer e buscou contato com estudos da cultura digital na graduação em Estudos de Mídia na UFF. Suspeita (sem ter certeza, é óbvio) que os memes são mais do que uma simples brincadeira digital. Ou não.

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Sobre Arran Rees

Arran Rees é doutorando na School of Fine Art, History of Art and Cultural Studies da University of Leeds. Antes de iniciar seu PhD, ele trabalhou como gestor de coleções e curador no Victoria & Albert Museum, no Cardiff Story Museum e no Royal Mint Museum, tendo interesse em coleções digitais e contemporâneas, e nos padrões de gestão e preservação dessas coleções.