O #MUSEUdeMEMES

meme-10449197_691435067576175_2113690013_oO #MUSEUdeMEMES é um projeto da Universidade Federal Fluminense que tem entre seus objetivos principais (1) a constituição de um acervo de referência para pesquisadores interessados na investigação sobre o universo dos memes, do humor e das práticas de construção de identidades e representações em comunidades virtuais; (2) a realização de eventos abertos ao público para debate sobre temas relacionados aos memes de internet; (3) o desenvolvimento de um projeto de experimentação em linguagem midiática voltado para a exploração de temas através de recursos lúdico-interativos e exposições multimidiáticas; (4) a orientação em projetos de pesquisa, iniciação científica e inovação tecnológica atravessadas por suas linhas temáticas; (5) o compartilhamento de reflexões e dados, brutos e tratados, para aproveitamento ulterior em pesquisas na área; e (6) o reconhecimento e testagem de aplicações voltadas à gestão de acervos e coleções em ambiente online de fácil reaproveitamento por projetos congêneres.

Em sentido estrito, o #MUSEUdeMEMES consiste em uma atividade que envolve pesquisa, ensino e divulgação científica, e tem como escopo a implementação de um espaço para discussão sobre a cultura dos memes e o desenvolvimento da pesquisa acadêmica sobre o tema. Este espaço, que vem se configurando na forma provocativa de um webmuseu, é um misto de três etapas distintas de produção, que envolvem alunos, professores, convidados externos, e o grande público: a etapa de planejamento, a etapa de organização do evento físico e a etapa de consolidação das discussões em ambiente virtual. Assim, o museu é, na verdade, uma experiência viva, que reúne e coleciona dinâmicas que têm se desenvolvido em ambiente presencial na universidade desde 2011 e procura dispô-las para o público na internet.

Tomado como sinônimo de plataforma online, pura e simplesmente, o #MUSEUdeMEMES é representado por um site que procura agregar conteúdo de pesquisa relacionado ao universo dos memes de internet. Ele não é, porém, um webmuseu no sentido que o senso comum costuma aplicar a esta categoria de ferramentas, pois não se configura a partir de um cenário tridimenssionalizado e não procura reproduzir ou emular a experiência de visitação real própria dos museus físicos. Trata-se de um museu que respeita o suporte midiático que lhe é inerente, e, como tal, aposta nos mecanismos de associação e agregação de conteúdos para apresentar ao seu “visitante” uma coleção por se construir, uma coleção em que o próprio visitação tece suas conjecturas e experiencia por si mesmo, pois os memes só ganham contexto quando o humor subjacente lhes emerge. A piada interna que, em muitos sentidos, é o próprio meme só se completa quando o interlocutor acha graça. Por isso, os memes, muitas vezes, sucumbem ao tempo. Por isso também, nem sempre os memes ultrapassam a condição de elementos (sub)culturais locais para se tornarem efetivamente conteúdos de grande abrangência. Nesse sentido, o que o #MUSEUdeMEMES propõe é se tornar um ponto de referência no ambiente da internet como acervo de artigos e ensaios, resenhas, entrevistas com autores e personagens desses próprios memes, e repositório de links e fontes relacionadas ao tema, seja de conteúdos analíticos produzidos por outros sites e pesquisadores, seja de dados compartilhados pelos próprios pesquisadores integrantes do projeto, ou ainda de listas com indicações de leituras e bibliografias mapeadas. Todas estas funcionalidades encontram-se disponíveis neste site. Mas a experiência do museu não se esgota aí…

Muito além do site, o #MUSEUdeMEMES é constituído por pessoas. É preciso admitir aqui que o museu não é um espaço apenas. Mesmo porque, em se tratando de espaços, o #MUSEUdeMEMES é inteiramente um museu virtual: não há salas, exposições permanentes, reserva técnica, bibliotecas, seguranças ou curadores. O museu sobrevive de ideias. O que é então esse museu?

O #MUSEUdeMEMES é um projeto que congrega alunos e professores da universidade em um ciclo de encontros presenciais para discussão sobre temas que afetam o universo dos memes. Temas como: o humor situacional, a sátira e a paródia; a construção de uma linguagem e identidade coletivas; a narrativa transmídia e o desenvolvimento de personagens arquetípicos; a ação política popular, a retórica persuasiva e a criação de estereótipos a partir de comportamentos e personagens reais; e muito mais. Os encontros presenciais, carinhosamente apelidados de #memeclubes, ocorrem regularmente nas dependências da Universidade Federal Fluminense, conforme agenda divulgada neste site. As apresentações e fotos dos eventos são compiladas e disponibilizadas neste mesmo endereço. Em paralelo, os integrantes do grupo de pesquisa que sustenta o projeto produzem artigos, resenhas e outras peças de informação, exclusivamente para o ambiente online, onde também é possível navegar pelos conteúdos através de um sistema de filtros de busca que se assemelha à tarefa do curador de uma exposição, responsável por delinear as associações entre os diferentes objetos expostos.

meme-10491170_691345560918459_635677935_oUm museu virtual, como diz Bernard Deloche, tem o objetivo de “mostrar o sensível por meio de um artefato”. O artefato caracteriza a substituição, a experienciação sensorial por conta própria, aquilo que só é possível com a arte, diz. À dimensão estética (o sensível), portanto, se unem a dimensão museal (o mostrável) e a dimensão virtual (o artefato, ou, diríamos, o exequível). O artefato, isto é, feito com arte, é aquilo que opera como elemento desencadeador da rememoração. O museu, argumenta Deloche em certo sentido, seja ele virtual ou não, é sempre um artefato capaz de despertar a emergência de sentidos para a memória.

Mas por que um museu de memes?

O professor de literatura alemã Andreas Huyssen destaca, em um de seus famosos ensaios sobre o papel da memória na cultura contemporânea, que a mídia é invariavelmente envolvida em críticas sobre uma eventual amnésia coletiva que vivenciaríamos nos dias de hoje. Ainda assim, ele lembra, este tipo de acusação ignora que é esta mesma mídia que “faz a memória ficar a cada dia cada vez mais disponível para nós”. A relação entre mídia e memória é fundamental para a compreensão do cenário midiático contemporâneo, em especial os debates travados sobre a internet e as comunidades virtuais, através do conceito de acumulação da informação. Se tomarmos como exemplo as dinâmicas cooperativas em fóruns e sites de redes sociais, perceberemos que as afinidades construídas nestes ambientes não só atendem a uma relação social valorada (por meio do que teóricos como Pierre Bourdieu, Robert Putnam e outros chamam “capital social”) e cognitivamente acumulável (vide o “efeito rich-get-richer”, descrito pelo físico húngaro Albert-László Barabási) como também aos efeitos da memória socialmente compartilhada. O antropólogo Peter Kollock e o cientista político Robert Axelrod já afirmavam, em fins da década de 1990, que a cooperação em ambientes virtuais, não tendo a mesma ancoragem do mundo físico, é em grande medida baseada em um histórico de reciprocidade. Em outras palavras, nós cultivamos identidades coletivas a partir de elementos de representação comum, criados e compartilhados entre nós.

Compreendidos os memes como mídia, tal como propõem os pesquisadores Michele Knobel e Colin Lankshear, um museu de memes é não apenas um espaço que os reúne (e mostra) a todos, mas um espaço que lhes dá sentido, se lhes experiencia. Um meme sozinho não faz verão. Como piadas internas, é preciso que compartilhemos seu significado, seu contexto, para que o meme se efetive. Não à toa, quando um brasileiro ouve falar na campanha que, em 2010 tentou salvar os pássaros galvão da extinção e levou aos trending topics do Twitter mundial a expressão #calabocagalvão, não conseguimos disfarçar um sorrisinho de canto de boca pela ironia. Afinal, brinca a pesquisadora Heather Horst, talvez esta seja uma das maiores piadas internas do mundo. E não são poucos os gringos que ainda caem na “pegadinha”. Se por um lado, diz Limor Shifman, os memes são artefatos triviais e mundanos, “na realidade”, reforça a pesquisadora, “eles refletem profundas estruturas sociais e culturais”. O estereótipo do brasileiro huehue que o diga…

Como artefatos midiáticos, os memes carecem de uma narrativa que os contextualize. O contexto é o que os reúne. Os memes, diz novamente Shifman, são sempre uma coleção de textos! E, aqui, no #MUSEUdeMEMES, nós os colecionamos…

meme (uma abreviação do grego μίμημα [míːmɛːma]) · é um fenômeno típico da internet, e pode se apresentar como uma imagem ou analogia, uma frase de efeito, um comportamento difundido, um desafio. memes são geralmente efêmeros mas no #MUSEUdeMEMES eles se tornam memória