#MUSEUdeMEMES Entrevista: Memes Históricos

Que a História é uma ficção pouco se duvida. Há quem diga que ela é narrada sempre sob o ponto de vista dos vitoriosos. Há quem diga que ela é fundamental para que as gerações futuras não caiam no esquecimento. Outros, ainda, afirmam que chegamos ao fim da História. Mas, como se sabe, enquanto houver quem a conte, a História se assemelha à zuera. Ela nunca acaba.

Com esse paralelo em mente, e sabendo que a História é incessantemente (re)apropriada por diversas expressões artísticas e culturais ‐ da literatura novelesca à música, do cinema aos games… e até aos memes, o #MUSEUdeMEMES quis saber: o que faz de um meme um meme histórico? Para tentar responder a essa pergunta, entrevistamos os criadores da fanpage Memes Históricos, uma página de humor que transforma em piada [de classe, rs] acontecimentos, processos e personagens da História.

Memes Históricos é uma página criada em maio de 2015 por estudantes universitários do curso de História da Universidade Federal Fluminense. Utilizando fotografias famosas de personagens históricos e líderes políticos, entremeadas com cenas retratadas pelo fotojornalismo ou pelas artes visuais, em uma linguagem de meme de internet, a fanpage rapidamente fez História e alcançou mais de 64 mil seguidores em pouco mais de dois anos.

Na entrevista a seguir, Gil Reis e Gabriel Matias, dois dos criadores da página, e historiadores em formação, contam mais sobre o dia-a-dia e a rotina de produção desses memes. A conversa conta um pouco sobre como, na visão dos dois jovens estudantes, o humor e a História podem caminhar juntos. O ensino da História, o papel dos memes como vetores de memória e elementos que carregam representações e narrativas sobre os acontecimentos, a relação afetiva com os seguidores da página, e as principais inspirações. As revelações são muitas. Você pode até pensar que a entrevista não valeria a pena, “mais valia”…1


#MUSEUdeMEMES Queremos saber do início dessa história. De onde veio a ideia de criar uma página envolvendo História e Memes?
Memes Históricos Começou como uma brincadeira mesmo. A gente reuniu o pessoal da turma e começou a fazer trocadilho sobre História e Memes. Aí, uma garota da nossa turma teve a genial ideia de criar uma página no facebook pra gente dar vazão a essa criatividade que a gente tinha dentro da sala de aula. A gente brincava muito, fazia trocadilhos, piadas, no geral. Daí a gente decidiu criar a página, que contava com seis administradores inicialmente e eram temas bem variados.

#MUSEUdeMEMES E o ano foi…?
Memes Históricos Primeiro semestre de 2015. Logo quando a gente entrou na universidade. Foi como se estivéssemos direcionando nosso ócio criativo.

#MUSEUdeMEMES Os memes publicados em Memes Históricos exploram uma grande amplitude de temporalidades (da Antiguidade ao período contemporâneo), personagens históricos e processos político-econômicos distintos. Essa diversidade, também expressa nos diferentes tipos de memes que vocês publicam, foi o objetivo desde o início, ou foi resultado do processo criativo?
Memes Históricos A gente nunca tem um roteiro de criação, é mais como se o que a gente visse na aula se transformasse nesses memes. A produção sempre foi diversificada e tal, mas dentro dos assuntos da universidade. Por isso, depois nós tentamos abrir para o público de ensino médio. Então sempre foi uma ideia nossa tentar expandir o máximo possível.

#MUSEUdeMEMES Aliás, como vocês bolam as piadas? E quais são as fontes de inspiração para as piadas e recortes históricos?
Memes Históricos O nosso processo criativo é um pouco anárquico, ele não segue uma lógica. Por exemplo, estamos no meio da sala de aula e fala-se sobre Napoleão, daí a gente começa a imaginar coisas, dá uma viajada ‐ tipo “Napoleão, o que a gente pode fazer com Napoleão?”, “quais são as piadas possíveis com o nome dele?” ‐. Começamos então a imaginar trocadilhos semânticos. E o processo criativo é dessa forma. Às vezes, surge, e às vezes, o próprio fato de estar em contato com a História, de estar estudando aquilo, nos faz querer reverter algum fato, tentar criar algum anacronismo interessante. Não tem uma lógica primordial.

#MUSEUdeMEMES E sobre a viralização da página, conta pra gente como foi esse processo? Como vocês lidaram com isso? E a que vocês atribuem esse alcance?
Memes Históricos Lembro que, quando inauguramos a página, o primeiro lugar que viralizou foi entre a turma. Como turma de calouros é sempre muito unida, com 20-25 pessoas juntas, as primeiras 100 curtidas foram fáceis. Logo que criamos a página, eu ficava contando as curtidas: ‘faltam tanto pra 100, tanto pra 150’. Eu costumo dizer que essa página é nosso filho, eu adoro essa página… de coração. E, foi assim, eu ficava sempre de olho na página pra saber as marcas de curtidas. O crescimento no começo foi uma coisa mais local. Foi mais uma brincadeira mesmo da própria turma. Só que teve um segundo processo de crescimento, que foi quando os memes [que compartilhamos] começaram a fazer sucesso entre pessoas que gostam de História ou pessoas que simplesmente gostam de piadas engraçadas. E foi, na segunda semana, acredito, quando a gente fazia três memes por dia, mais de brincadeira mesmo, que eles começaram a alcançar 5, 10 mil pessoas. Foi um crescimento muito rápido no começo. Vertiginoso, realmente. A brincadeira ficou mais séria. No iniciozinho, o Facebook ainda dá aquela moral pra gente. E tinha gente patrocinando também. Essa parte é boa: teve um cara que nos mandou uma mensagem um dia dizendo: “Olha, promovi a página de vocês, porque a achei a ideia muito boa! Gastei o meu dinheiro porque quero ver essa p*#$@ crescendo!”. Isso foi logo no comecinho, no primeiro mês. O cara deu o dinheiro. Acho que uns R$12 pra patrocinar, aumentar o alcance. E nesse mês, quando acabou o período de promoção da página, tínhamos umas 10 mil curtidas e a visualização aumentou entre 100 e 150 vezes. Foi muita coisa. Foi uma ação que deu aquele bump na página que a gente nunca imaginaria A gente inclusive tem que agradecer a esse cara. Quando completarmos 50 mil curtidas, vamos fazer isso. 2

#MUSEUdeMEMES Conta pra gente como é o cotidiano das postagens e a divisão das tarefas.
Memes Históricos No começo era bem mais dividido. Cada um tinha um apelido e uma preferência por algum tema. Hoje em dia somos só nós dois, e é uma criação mais livre. 3 Quando um não faz meme, o outro faz. A gente tenta repostar alguns memes também, já que fica mais difícil, com menos administradores. Como existem muitas funcionalidades em página de Facebook, nosso papel é de “postador” mesmo. E a maioria das postagens são com imagens. De vez em quando a gente tenta se aventurar nuns textinhos. Nas olimpíadas mesmo nós fizemos muita coisa escrita, aproveitando aquela maratona de esportes a noite inteira. Nós assistíamos às competições e ficávamos animados. Daí, escrevíamos alguma coisa e a adesão era sempre muita boa. De vez em quando, a gente coloca também notícias interessantes relacionadas a temáticas históricas: recentemente, descobriram uma estátua de oito metros do Ramsés II lá numa favela do Egito. Daí a gente até brincou um pouquinho, falando que Ramsés II era da quebrada, escutava Racionais MC’s.

#MUSEUdeMEMES Na direção do que vocês disseram na resposta anterior, observamos que a maior parte dos conteúdos que vocês publicam é produzida no formato de image macro. Como se deu essa escolha? E de onde vocês tiram as imagens que servem de base para as postagens?
Memes Históricos Em primeiro lugar, a gente tira do Google Imagens, que tem um acervo imenso. Quando pensamos em uma piada sobre Hitler, pesquisamos lá, e já tiramos várias imagens. Mas, de acordo com o tema, buscamos imagens específicas. Imagens raras da História, ou que sejam mais engraçadas: do Hitler treinando oratória, fazendo uma pose diferente. Uma coisa que só poucas pessoas têm, não é um tipo de imagem que você acha no Google [entre os primeiros resultados]. Por isso, de vez em quando, buscamos acervos diferentes e fizemos parceria com páginas ligadas a fotografias históricas. Inclusive o nome de uma delas é Fotografias da História. Eles nos fornecem base pra fazer memes diferentes. A escolha do formato (image macro) se deve ao sucesso que a imagem faz [entre o público que compartilha memes], com legendas em cima e em baixo. Daí aliamos essa fórmula à História. Mas, claro, sempre buscando informação. Colocando link quando o assunto é meio nebuloso. E de vez em quando são os memes mais clássicos que a gente utiliza, como o do sapinho bebendo whisky e dizendo “isso não é problema meu”, que nós usamos pra falar da Suíça (durante as Guerras Mundiais).

#MUSEUdeMEMES Vocês criam a piada e buscam pela imagem perfeita ou a imagem desperta a piada?
Memes Históricos Ambos. Uma foto, por exemplo, faz despertar uma piada que nos faz buscar por outra imagem. Daí, através de nossas parcerias [com outras páginas], temos acesso a novas imagens.

#MUSEUdeMEMES Hum. E quais memes mais repercutem e fazem sucesso? Vocês tem algum mapeamento nesse sentido?
Memes Históricos Nós não chegamos a tabular quais memes fizeram mais sucesso. Mas temos a sensação de que as figuras mais autoritárias da História recente são as que mais fazem sucesso: Hitler, Stalin, Vargas4. Esses memes, de certa forma, chamam mais atenção. É um meme engraçado com uma figura autoritária. Piadas sobre a II Guerra Mundial fazem muito sucesso. Por causa da Itália que troca de lado, da França que se rende, da Alemanha que perde a guerra. E figuras mais próximas, cronologicamente, do nosso período.

#MUSEUdeMEMES Como vocês descreveriam ou definiriam o humor de Memes Históricos? Afinal, o que faz as pessoas rirem do conteúdo da página? E vocês ainda riem das piadas que contam?
Memes Históricos Sim! Costumamos rever os memes antigos e nos pegamos rindo muitas vezes dos memes que cada um de nós fazia. E até pra buscar inspiração, nós pegamos algo que fizemos antes, e que fez sucesso, e tentamos copiar alguns elementos. Um trabalho de releitura. E o legal do humor com a História é brincar com a imagem de pessoas do passado, que não podem se defender [risos]. Fazer uma piada anacrônica também é divertido. Usar o anacronismo no humor, já que não podemos ser anacrônicos na História enquanto ciência. O anacrônico já é engraçado por si só. Tipo uma frase do [ex-presidente norte-americano] Lincoln: “Nem tudo que está escrito na internet é verdade ‐ Abraham Lincoln”…

#MUSEUdeMEMES É bastante comum o uso de memes inseridos num debate político sobre acontecimentos atuais e antigos. Qual a relação/linha editorial da Memes Históricos quanto a esse aspecto? A página tem algum posicionamento político?
Memes Históricos A gente tenta, de certa forma. Acredito que a neutralidade não existe, mas tentamos como objetivo maior fazer graça com os personagens históricos e não pensamos em criar debates profundos. Em questão de posicionamento político, eu me considero de esquerda. Mas não postamos coisas relacionadas à esquerda na página apenas. A gente tenta fazer memes pras pessoas rirem. De vez em quando há comentários raivosos, mas a gente não alimenta o troll. A gente não tem a intenção de virar um seminário. Até porque o meme tem um formato muito “fechado”, há pouca informação e o conteúdo é mais imagético. Você tenta convencer a pessoa pela imagem.

#MUSEUdeMEMES Por falar em trolls, História e Política podem ser ingredientes de uma receita explosiva. E o humor não está ‐ nem de longe ‐ livre disso. Como vocês lidam com os haters e as “tretas” que ocorrem a partir das narrativas e personagens que vocês criam?
Memes Históricos Nós tentamos ao máximo ignorá-los, porque não sabemos qual é a intenção do hater, se é somente criar confusão, se é levantar debate com argumentação… Nós filtramos muito pela forma como a pessoa se apresenta. Se trouxe um argumento legal, a gente responde e conversa, mas sem ódio. Nós já fechamos um pacto, há muito tempo, de não responder quem quer treta.

#MUSEUdeMEMES Que público consome os conteúdos da página? Vocês pensam nisso ao produzirem memes?
Memes Históricos A gente percebe que o segmento mais fiel é realmente de historiadores interessados em rir e em buscar algum conteúdo [da página]. Notamos também um público feminino muito forte, de quase 70% das pessoas que curtem e comentam. A faixa etária da maior parte do público da página é de 16 a 25 anos de idade. É uma galera que tá fazendo ensino médio, que tá fazendo ENEM. De certa forma, acreditamos que até os professores influenciam isso, como forma de estimular os alunos a aprender História de uma maneira diferente, a partir de memes.

#MUSEUdeMEMES Então quem tem um mínimo conhecimento de História e se depara com Memes Históricos, vai dar boas risadas?
Memes Históricos Sim, sim! Os memes são bem abertos pra qualquer tipo de segmento. É uma forma de entretenimento. E a virtude do meme é propiciar uma certa abertura aos temas. Acreditamos que esses memes possam fazer essa abertura para os interessados em aprender mais História.

#MUSEUdeMEMES Há alguma diferença entre a perspectiva que vocês tinham ‐ sobre a página e os memes históricos que vocês fazem ‐ e a que tem hoje? Como vocês enxergam o trabalho de vocês?
Memes Históricos A página antes era mais como uma diversão de e para universitários, um público mais restrito, com piadas sobre a aula que só a gente via. Daí, a coisa foi crescendo e nós fomos tentando fazer postagens mais gerais. Fomos do particular ao geral. Conforme foi dando certo, nós tínhamos a sensação de que devíamos fazer mais memes e foi o que fizemos. Mas acreditamos ter mantido a criatividade e a leveza do processo criativo. Não é algo forçado. É algo que surge quando estamos andando na rua e nos deparamos com algo ‐ “caramba isso é um meme!” ‐, então, é só escrever no celular e fazer depois.

#MUSEUdeMEMES História e memória estão sempre imbricadas. Como vocês veem os memes históricos dentro da dinâmica entre lembrança e esquecimento?
Memes Históricos Dá pra fazer um paralelo com a internet. Sobre como um assunto rapidamente é difundido e esquecido. Acreditamos que o meme também está inserido nisso. A função da História é essa, de trazer de volta uma memória coletiva e com o debate ideológico. Reimaginar a memória, reutilizá-la. Inclusive um dia colocamos um foto do Stalin e um cara comentou: “não sei como vocês conseguem brincar com a figura do maior genocida da História”. Ou seja, a memória coletiva ainda é muito forte, mesmo ligada aos memes. E isso gera comentários dos mais diversos tipos. É interessante perceber como a memória é o palco de lutas da História.

#MUSEUdeMEMES Agora queremos saber sobre “ozamigo” e “azamiga”. Que páginas apoiam e/ou são apoiadas por vocês? Como se dá essa relação na rede que vocês formaram?
Memes Históricos A gente sempre faz parceria, para ter conteúdo e divulgação mútua. Um exemplo disso é que, no ano passado, a gente tinha parceria com uma página chamada Feudalicious, que brinca com gravuras medievais. Uma parceria forte, porque eles compartilhavam imagens nossas e nós deles. Como já dissemos, também temos a parceria com a página Fotografias da História, de onde pegamos boa parte de nossa matéria-prima. Também temos parceria com uma página só sobre o período Tudor ‐ de uma menina de São Paulo ‐ que é mais voltada à pesquisa científica. Ela sempre busca nossa página pra fazer um contraponto e um complemento à dela com o conteúdo relacionado, com post sobre Henrique VIII, entre outros. Há uma troca bem legal e nós brincamos muito com a figura do Henrique VIII, por ter tido várias esposas e ter criado uma Igreja pra validar seu divórcio e poder casar de novo. Isso já nos rendeu muitos memes.

#MUSEUdeMEMES Vi até um meme recente de vocês com a Ana Bolena. Sobre perder a cabeça…5
Memes Históricos Foi. Usamos como se fosse um depoimento no programa “Casos de Família” [risos].

#MUSEUdeMEMES Vocês reproduzem conteúdo criado por terceiros? Como lidam com as páginas que reproduzem seus conteúdos? E existem muitas cópias/clones da Memes Históricos?
Memes Históricos Nós entendemos que a internet é um espaço anárquico, e já percebemos que imagens nossas, uma semana depois de postadas, são usadas por outras páginas, com outras marcas d’água. Acontece isso. Também tem páginas que reclamam da gente, dizendo que algum conteúdo nosso tem um estilo parecido. Daí dizemos: “nós acompanhamos a página de vocês, mas só copiamos a imagem-base e não a ideia”. É um espaço anárquico. Muitas vezes não sabemos a origem das coisas, mas nessas situações sempre tentamos dar os créditos a quem de direito. Temos quase mil memes e maioria fomos nós quem produzimos, a partir de ideias originais nossas. E quando é um meme em série, quando há uma semana temática, a gente sempre tenta dar os créditos para a pessoa ou a página que nos deu sugestão por inbox.

#MUSEUdeMEMES Há algum tipo de humor que vocês não fariam?
Memes Históricos Humor racista. Isso não é nem humor, né? Qualquer tipo de humor que causa vexame a alguma pessoa. Expor alguém a uma situação embaraçosa. Bullying e racismo nós nunca faríamos. E isso não foi nem um acordo, pois a gente sempre teve isso na cabeça e não precisou conversar sobre isso.

#MUSEUdeMEMES Notamos que os memes não envolvem episódios da História recente do Brasil. Foi uma escolha deliberada?
Memes Históricos A História recente é um pouco complicada [para se trabalhar], não só porque ela gera enorme controvérsia, mas também porque, quando se pensa em História, é comum nos remetermos a um passado longínquo. Nós acreditamos que brincar com figuras com maior distanciamento histórico é mais engraçado. Também nem sempre conseguimos pensar em trocadilhos para a História presente. De vez em quando a gente até faz. Um dia, a gente pegou o cara do History Channel e colocou o rosto do Sarney, trocando a legenda “Alien” por “Maranhão”6. Tentamos sempre brincar um pouco com tudo, mas a História recente do Brasil é mais complicada. Brincar com os debates relacionados aos últimos acontecimentos pode trazer uma visibilidade a que não queremos estar associados… Tem uma página chamada Lula Presidente, Bolsomito Vice [risos]. Se a gente for brincar, tem que ser algo assim, escatológico, ou esquizofrênico, tacando pedra nos dois lados.

#MUSEUdeMEMES E como o conteúdo que vocês criam sobrevive ao tempo? Os memes do início da página ainda fariam sentido ou graça se consumidos hoje?
Memes Históricos Acho que sim. Porque a gente não se prende à História recente. No máximo, à política internacional, que faz algum sucesso. Como na época em que a Grécia estava “quebrada”7, muito embora este seja um assunto que não está mais em voga no noticiário. Nos primeiros meses que a gente fez, foi algo relacionado à aula mesmo. Foram conteúdos relativos ao que é trabalhado no ensino médio, por isso provavelmente faria ainda sucesso hoje. E tem alguns memes de correntes que nós não poderíamos usar hoje, pois as correntes são passageiras, são formas lúdicas de o Facebook brincar com a redes. Também tem memes de músicas que fizeram muito sucesso no passado que não daria pra brincar mais, como um meme com algum hit do verão.

#MUSEUdeMEMES Vocês ganham algum dinheiro com a página? Como é a vida de criador de conteúdo para uma fanpage no Facebook, na visão de vocês? Quem vive de passado é museu?
Memes Históricos Vida de administrador de página no Facebook é igual a vida de historiador. Não se ganha nada. Já tivemos até o projeto de vender camisa com a estampa mais famosa, mas não foi pra frente. É um projeto legal? É. Sinceramente, não faríamos pelo dinheiro. Faríamos por querer ver uma pessoa usando algo que eu fiz. Imagina esbarrar na rua com uma pessoa com um meme nosso? O “Sofista Prateado”8, por exemplo, que é um trocadilho com o universo dos quadrinhos. Mas realmente, a gente não ganha nada com isso, só fazemos porque a gente gosta.o ganhamos nenhum dinheiro com a página, só fazemos porque gostamos. Em todo caso, se alguma empresa quiser nos patrocinar, nós topamos fechar um contrato milionário [risos].

#MUSEUdeMEMES Nossa ampulheta está chegando ao fim. Para findar então, algumas perguntinhas sobre educação. Vocês pensam na hipótese de seus memes serem usados em escolas? Na perspectiva de vocês seria possível um ensino de História com memes?
Memes Históricos Não só é possível, como já acontece. A gente tem, na caixa de mensagens da Memes Históricos, vários professores que nos procuraram para saber se autorizaríamos o uso dos nossos memes na sala de aula, porque eles desejavam fazer isso com os alunos. E, hoje, por incrível coincidência, eu tive uma aula sobre a distância entre o aluno e o professor. A função do professor é justamente essa: diminuir essa distância entre o aluno e o que ele tem a aprender. Nesse caso, o meme pode muito bem ser uma fonte alternativa de ensino. A competição entre o aluno-com-celular e o professor-com-a-velha-cuspideira não está dando certo. Por que não unir o útil ao agradável e fazer o estudante ver na aula o que ele vê na rua ou na internet quando está no celular? Ver algo divertido. Por que a aula tem de ser séria? A aula tem é de transmitir conteúdo, antes de qualquer coisa. E o conhecimento histórico fica muito mais fácil de ser entendido quando ele faz parte do espaço vivido do aluno, quando ele consegue interpretar a História como algo que acontece no cotidiano dele. A escola tem que ser uma extensão da casa, da sociedade, não tem que ser uma coisa fechada e encastelada.

#MUSEUdeMEMES Na opinião de vocês, quem consome memes sabe menos ou mais sobre História?
Memes Históricos Então, nós acreditamos que “meme” nunca é a palavra absoluta em nenhum assunto. Como recurso didático, tentamos fazer como se fosse o primeiro contato com certo assunto. E quando fazemos piadas “obscuras” [com referências pouco conhecidas], sempre colocamos links para aprofundar o tema. O meme serve como uma provocação. Se a pessoa já sabe do tema, ela pode aprender algo diferente sobre aquilo. Se a pessoa não sabe, o meme pode funcionar como um propulsor do ensino.

 

Rodrigo não, meu nome é Kátia!
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Todo natural, bonito pra caramba, Rodrigo... quer dizer, Kátia é um jovem graduando em Estudos de Mídia/UFF e bolsista de pesquisa (PIBIC/CNPq) num projeto sobre memes políticos. Original de Pernambuco, onde se graduou em História/UFPE, o rapaz veio morar em Niterói após desiludir-se com o cancelamento de show de Patati e Patatá. O quê? Não gostou? Então porquê você não vira presidente da república pra poder falar isso, linda!?
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Sobre Success Viktor

Success Viktor é um jovem professor da Universidade Federal Fluminense que trabalha arduamente para motivar sua equipe. É doutor em História, Política e Bens Culturais/Cpdoc-FGV, mas, pela carinha de novinho, é invariavelmente confundido com o menino Sam Griner, ou por vezes com um aluno. Ainda assim, tem procurado desenvolver pesquisas sérias e maduras relacionadas à economia política da mídia e ao universo das culturas políticas e práticas de cooperação. E até aqui tem obtido resultados positivos. YES! VICTORY! viktor@midia.uff.br