#MUSEUdeMEMES Entrevista: MAPS – Museu de Artes Populares


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Imagine um museu grandioso, que abriga uma das maiores coleções privadas de arte decorativa, gravuras impressas, desenhos e esculturas. Seu prédio é, por si só, uma obra arquitetônica brutalista, no coração de um dos maiores e mais cosmopolitas aglomerados humanos. Suas galerias exibem quadros monumentais, que levam os visitantes a uma experiência de contemplação única sobre as “artes populares”. O MAPS ‐ Museu de Artes Populares (não confundir com o parônimo MASP ‐ Museu de Arte de São Paulo) é um dos primeiros museus virtuais dedicados a exibir tweets antigos de celebridades, textões de gente anônima e memes de internet01. Entre uma foto do Faustão sombria caracterizado como Ricardo III02, e uma tela com múltiplas Anas Marias Bragas, cada uma com um penteado diferente, perfiladas na Última Ceia03, o MAPS é essencialmente uma fanpage do Facebook dedicada a apresentar memes emoldurados como se estivessem dependurados nas paredes da galeria de um museu. Sempre em cenas com observadores atentos ou visitantes sentados em um banquinho para contemplar a obra, os memes ou as capturas de trechos de postagens em sites de redes sociais são as “artes populares” que dão título ao museu.
 
Criado em junho de 2014 pelo geógrafo paulistano Guilherme Stanko e, atualmente, também administrada pelo arquiteto curitibano Hermes Nichele, o museu brinca com a estética própria da internet, e desafia o senso comum através de, nas palavras dos próprios administradores, “um humor ironicamente rebuscado, com o objetivo de glamurizar memes com ares artísticos, a fim de explorar o efeito burlesco trazido pela visualização de uma imagem retirada de seu contexto original e enquadrada numa moldura”. As piadas, muitas vezes, emergem do paralelo traçado com os museus como instituições de preservação e também do vocabulário rebuscado e pretensioso da crítica de arte. São legendas como “A sexualização precoce a TV nos anos 90 influenciou o trabalho do artista em questão que mescla elementos da erotização e inocência apresentados na TV aberta”, diante de um quadro com Luiza Ambiel na Banheira do Gugu com Tiririca04. Ou: “Com elementos gráficos como a coroa em contato com uma tipografia um tanto peculiar, Duchamp cria uma aura que pende ao surrealismo, muito mais do que ao dadaísmo”, que dá significado à obra “Mõae minha Bainha”, que retrata Bárbara Evans exibindo faceira suas tatuagens nos antebraços05. Com mais de 250 mil seguidores no Facebook, o MAPS é, hoje, patrimônio da internet brasileira.
 
Na entrevista abaixo, feita pelos integrantes do #MUSEUdeMEMES, você confere um pouco mais sobre o MAPS e seus curadores. É um museu entrevistando um outro museu!

 


#MUSEUdeMEMES Iniciando nossa visitação pelo MAPS ‐ Museu de Artes Populares, contem pra gente como esse conceito e a página homônima foram criados? Por que um “museu”, afinal de contas?
Guilherme Stanko A página foi criada em 2014. Na real nem existia um conceito, sempre pensei que os memes brasileiros são dignos de pertencerem a paredes de um museu. A produção de memes no Brasil é intensa e ininterrupta, é arte pura.
Hermes Nichele Um museu não é um local para contemplação de uma arte de determinada cultura em determinada época? Pois consideramos os memes como parte da cultura atual.
 
#MUSEUdeMEMES E a ideia de tratar como “artes populares” os memes e interações que acontecem na internet e nos sites de redes sociais? Esse enquadramento (literalmente, porque estamos falando de memes que se transformam em quadros, rs) é tributário da ideia de museu evocada pela página ou há outros motivos?
Guilherme Stanko A arte sempre foi elitizada, sempre relacionamos arte com pessoas distintas observando quadros sem sentido algum, em uma parede de um museu chique. Quando surgiu o nome “Museu de Artes Populares”, a intenção era mostrar que todo mundo pode ter acesso à arte, e que o conceito de “arte” é livre. Qualquer coisa pode ser arte, desde uma escultura de Rodin até o Louro José. Depende do ponto de vista.
Hermes Nichele Outro ponto é o anonimato, e a criação de improviso dos memes emoldurados, isto é, justamente a despretensão de considerar tudo isso arte. Quer dizer, procuramos exatamente colocar imagens comuns dentro de um quadro ou outdoor para demonstrar que aquilo tem uma carga artística. Tem por não querer ter.
 
#MUSEUdeMEMES E de onde vêm as peças e quadros (os memes) expostos no MAPS? Como é o processo criativo de vocês?
Hermes Nichele A gente acompanha todos os dias os novos memes que surgem em grupos e páginas, relacionados a séries, programas de tv, cruzamento de informações, músicas, notícias. Também gostamos de resgatar imagens antigas do Orkut, do MSN, do Windows 98, ou de novelas antigas. O processo é basicamente o de pegar algo que é ou foi viral e dar um toque “requintado” de arte.
 
#MUSEUdeMEMES Vocês expõem nas molduras do MAPS memes de outras páginas? Já houve algum problema nessa dinâmica?
Guilherme Stanko O MAPS funciona como um museu, ele quase não cria a obra, ele funciona como um repositório de memes. Temos diversas criações próprias e produções originais, mas a grande maioria dos memes expostos na página, são de outros lugares.
Hermes Nichele Não houve problemas. Se alguém nos avisa, requisitando crédito pela criação, nós colocamos.
 
#MUSEUdeMEMES E como vocês lidam com a reprodução do conteúdo do MAPS por outras páginas?
Guilherme Stanko Tudo que a gente publica na página é creditado, e procuramos sempre apresentar o criador da arte, seja ela uma página ou uma pessoa comum. Por esse motivo, prezamos muito pela compreensão das outras páginas no que se refere a créditos. Quase que diariamente somos “kibados” por outras páginas. É chato, pois ter uma página e produzir um conteúdo original, demanda tempo e disposição.
 
#MUSEUdeMEMES Há outras páginas com proposta semelhante à do Museu de Artes Populares?
Guilherme Stanko Fomos a primeira página do Brasil que temos conhecimento a apresentar um museu de memes, e somos a maior deste segmento. Depois do crescimento do MAPS, outros museus surgiram, com diferentes propostas mas com a mesma ideia. É uma sensação bem legal, pois meio que inauguramos um segmento na internet.
 
#MUSEUdeMEMES Como é o cotidiano da página entre a criação de conteúdo, postagens, interação e demais tarefas da administração? Quantas pessoas estão envolvidas em toda essa cadeia de produção?
Hermes Nichele Somos eu e o Guilherme administrando apenas. A gente se reveza e conversa algumas vezes para acertar algum conteúdo ou coisa assim. Mas, no geral, conforme a gente vai tendo tempo, ou surge uma ideia, a gente está ali postando. De vez em quando, eu gosto de olhar as últimas postagens e curtir/responder comentários das pessoas.
 
#MUSEUdeMEMES Conta pra gente sobre o circuito museológico ou sobre a rede do MAPS. Que páginas (de humor e outros gêneros) apoiam, curtem o museu e quais vocês apoiam?
Hermes Nichele A gente tem ótimos laços de amizade com a página SenseMarcia. Por isso, eu gosto de postar algo com referência à grande sensitiva Marcia Fernandes. Além disso, apoiamos e curtimos diversas páginas de conteúdo de humor jovem e LGBT. O Brasil que deu certo, Obras literárias com capas de memes genuinamente brasileiros, Legado da Copa, aiTunes, Rata Records Inc., Melhores do Twitter etc. São alguns exemplos.
 
#MUSEUdeMEMES Como podemos descrever o humor explorado pelo Museu de Artes Populares?
Hermes Nichele Um humor ironicamente rebuscado, com o objetivo de glamurizar memes com ares artísticos, a fim de explorar o efeito burlesco trazido pela visualização de uma imagem retirada de seu contexto original e enquadrada numa moldura.
 
#MUSEUdeMEMES Sobre a viralização da página, como o Museu de Artes Populares se popularizou e a que vocês atribuem esse sucesso?
Hermes Nichele Algumas publicações são logicamente mais bem sucedidas que outras. Geralmente o que dá mais views e likes pra página são as postagens com situações e memes do imediato, coisas que estão acontecendo, imagens quentes. Mas, o modo original com que trabalhamos essas fontes, e o novo olhar que a página dá, também são fundamentais para a sua popularização.
 
#MUSEUdeMEMES Sobre a curadoria do conteúdo, como funciona a política editorial de vocês? O que pode ou não pode ser publicado no MAPS? Uma grande porção de páginas de humor (inclusive algumas entrevistadas por nós) evitam temas políticos mais quentes e contemporâneos, com receio das tensões e longos debates. Vocês tem alguma determinação nesse sentido? O Museu de Artes Populares expõe conteúdos ligados ao cenário político nacional?
Hermes Nichele Preferimos não postar coisas pendendo pra um ou outro lado político porque não queremos essa discussão na página. Lógico que imagens satíricas da política são recorrentes, mas aí é diferente. Outro quesito é que preferimos apagar o nome das pessoas em prints e muitas vezes o rosto também, dependendo da situação.
Guilherme Stanko Já tivemos conteúdo político, mas deixamos claro que a página não tem posicionamento político. O nosso público é bem diverso, e respeitoso. Qualquer conteúdo político na página é visto como arte. As pessoas sabem ver de uma forma artística um quadro com “Fora Temer” e um “Viva Eduardo Cunha”, sem ter que problematizar ou relativizar o contexto.
 
#MUSEUdeMEMES Há algum tipo de humor que o MAPS não faria?
Guilherme Stanko Qualquer tipo de conteúdo que ofenda uma pessoa que seja não é bem-vindo na página. Nem sempre é possível fugir de algum conteúdo polêmico, mas as pessoas que curtem a página sempre nos alertam sobre esse tipo de conteúdo ou indicam se o que postamos pode ser [interpretado como] ofensivo. Mexer com um público grande demanda bastante cuidado, e o que pra gente é inofensivo pode ser totalmente destrutivo para o outro.
 
#MUSEUdeMEMES Como vocês lidam com os haters na página? Contem também se algumas pessoas já se sentiram ofendidas por um quadro ou algum conteúdo de vocês.
Guilherme Stanko Por incrível que pareça, o pessoal que curte a página é bem sossegado, em todos esses anos nunca tivemos nenhuma briga absurda. Já tivemos que intervir sobre algumas coisas [comentários] preconceituosas ou ofensivas. Nesse caso, apagamos a postagem e mandamos uma mensagem pra pessoa. Mesmo no campo minado da política, as pessoas, quase sempre, costumam discutir civilizadamente.
 
#MUSEUdeMEMES Vocês são ligados ou se inspiram em algum museu físico? Como se dá (ou se deu) essa relação?
Hermes Nichele Acredito que a gente acaba naturalmente se baseando no imaginário comum de um museu, com galerias enormes com quadros monumentais e pessoas admirando e fotografando.
 
#MUSEUdeMEMES Como se deu a escolha pela sigla “MAPS”?
Guilherme Stanko Museu de Artes Populares é o nome desde o começo. Já a sigla antes era MASP – Museu de Artes Populares. Mas, daí a página começou a crescer demais, e ficamos preocupados com [as implicações sobre o uso d]a sigla MASP [a mesma do Museu de Arte de São Paulo], porque já era uma marca registrada. Além disso, o MASP de verdade poderia interpretar de forma errada a página.
Hermes Nichele Sim, era uma referência piadista com o verdadeiro MASP. Mas, aí, com o crescimento da página, achamos melhor mudar para evitar o processinho.
 
#MUSEUdeMEMES E quando será a exposição física das obras do Museu de Artes Populares? (rs) Vocês já pensaram sobre?
Guilherme Stanko É o meu maior sonho. Todos os dias penso em um espaço pra essa nova forma de arte. Inclusive estamos abertos ao convite e precisamos de patrocinadores.
 
#MUSEUdeMEMES É dito popularmente que “quem vive de passado é museu”. Esse não seria o caso do MAPS, pois vocês trabalham com signos culturais dos dias atuais. Vocês ‐ museólogos das “artes populares” ‐ obtém algum ganho financeiro com o museu?
Hermes Nichele Infelizmente, ainda não [risos]. A gente espera conseguir, de algum modo, tirar algum ganho. Porém, nos falta tempo, e estrutura, muitas vezes, para nos dedicarmos a algum projeto do gênero.
 
#MUSEUdeMEMES Os memes e demais vestígios de sociabilidades atuais na internet são tidos como objetos efêmeros. Qual seria a relação possível entre essas produções e a preservação da memória?
Hermes Nichele Cara, nesse mundo pós-moderno que a gente vive, onde a definição de arte já foi rediscutida tantas vezes, eu acho que esses traços da internet são, sim, importantes documentos de memória. Basta olhar antigas imagens da Colheita Feliz, do ICQ e do fundo de tela clássico do Windows XP, por exemplo. Isso guarda uma carga de sensações e atos passados num sentido bastante nostálgico. E, na minha opinião, o MAPS até colabora para esse resgate e a valorização do passado. Nós podemos ter uma lembrança de ter estudado um Rembrandt ou ter visitado o Louvre, mas nós VIVEMOS a ascensão e queda do Orkut, vivemos o 7×1, compartilhamos, damos like, tweetamos, comentamos, mandamos mensagens no Whats. Todos os dias. É a vivência plena da (por nós chamada) arte cibernética.
 
#MUSEUdeMEMES Aliás, vocês enxergam ou acreditam que as nossas dinâmicas de preservação da memória estejam de alguma maneira se reconfigurando?
Guilherme Stanko Acredito que toda [forma de] preservação de memória seja efêmera e em constante modificação. Dos anos 1990 para cá, com o advento da internet, tivemos uma revolução jamais vista na história, e a preservação da memória é cada vez mais intensa e detalhada. O que, antes, era registrado em livros, e na esfera pessoal, por meio de documentos de acesso restrito, hoje em dia está presente em um arsenal de dispositivos. As redes sociais participam ativamente desse fenômeno. Creio que ainda somos muito imaturos em relação a todo esse potencial e ainda passaremos por uma espécie de “depressão pós-redes sociais”, em função de toda essa exposição.
 
#MUSEUdeMEMES O MAPS algum dia pode se tornar ele próprio peça de museu? Vocês temem a possibilidade de esquecimento?
Hermes Nichele Lógico que é muito importante pra nós o valor afetivo e de longo prazo que as pessoas têm pela page. Mas vai saber se o Facebook mesmo não vai ser superado por outra rede? Pode ser que um dia o MAPS não seja popular como é hoje, mas a gente entende que as coisas da internet são feitas para apreciação momentânea. Você lembra o que curtiu ou compartilhou em maio deste ano? Provavelmente não. Mas naquele dia que você deu um clique fez todo sentido deixar sua reação no que quer que fosse. E assim a rotina cibernética segue. Então procuramos não temer e viver como se não houvesse mais 7×1.
 
 
 

Rodrigo não, meu nome é Kátia!
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Todo natural, bonito pra caramba, Rodrigo... quer dizer, Kátia é um jovem graduando em Estudos de Mídia/UFF e bolsista de inovação tecnológica (PIBITI/CNPq) num projeto sobre memes. Original de Pernambuco, onde se graduou em História/UFPE, o rapaz veio morar em Niterói após desiludir-se com o cancelamento de show de Patati e Patatá. O quê? Não gostou? Então porquê você não vira presidente da república pra poder falar isso, linda!?
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Sobre Rodrigo não, meu nome é Kátia!

Todo natural, bonito pra caramba, Rodrigo... quer dizer, Kátia é um jovem graduando em Estudos de Mídia/UFF e bolsista de inovação tecnológica (PIBITI/CNPq) num projeto sobre memes. Original de Pernambuco, onde se graduou em História/UFPE, o rapaz veio morar em Niterói após desiludir-se com o cancelamento de show de Patati e Patatá. O quê? Não gostou? Então porquê você não vira presidente da república pra poder falar isso, linda!?