Memes e territorialidades: quando o humor é pautado em estereótipos culturais

Knobel & Lankshear1 propõem que os memes são um conjunto de experiências que os usuários de sites de redes sociais “vivenciam” e, que para que se compreenda seu significado, é preciso que sejam lidos socialmente e culturalmente. Adotando a perspectiva do “letramento” (ou literacy, no original em inglês), os autores argumentam que a pessoa que não está inserida no contexto, não é capaz de entender completamente a piada ou humor empregado em um determinado meme. É esta experiência de letramento que, muitas vezes, nos falta quando não compreendemos uma piada de outro país. O humor é frequentemente atravessado por uma condição territorial.

Analisar os memes de internet produzidos em uma dada região ou país nos exige reconhecer as fronteiras desse humor. Como aponta a húngara Linda Börzsei2, a ideia de uma “web nacional” pode ser exprimida de três maneiras distintas, a saber: (1) pela fronteira de quem fala determinado idioma, (2) pelas fronteiras geográficas de cada país, e (3) pela fronteira dos sentidos e representações construídas. Partindo dessa categorização, conseguimos melhor entender como os memes podem atuar em processos de construção de identidades nacionais, e ajudar a propagar estereótipos culturais em sites de redes sociais e comunidades virtuais. Com base nestes dois princípios (as identidades e a experiência de letramento), e tomando como primeiro caso um meme particularmente difundido nos Estados Unidos, o Meanwhile in…, tentamos compreender como o humor se desenvolve a partir do aspecto territorial, e como, sobretudo neste caso, ele atua na construção e disseminação de estereótipos culturais.

O Meanwhile in foi difundido principalmente no 4chan3, e tem expressões também em outros países, com traduções literais como Enquanto isso na…. Mas em que consiste a graça deste meme? Que humor é acionado quando alguém produz um meme desta série?

Já na primeira olhadela, identificamos estereótipos sobre diferentes nacionalidades empregados com humor ácido, em muitos casos, “politicamente incorreto”, característico do 4chan, uma rede social onde todos podem ser anônimos e se aproveitam dessa premissa para compartilhar todos os tipos de assuntos possíveis, inclusive àqueles mais amargos e preconceituosos. No caso deste meme, os estereótipos constroem-se a partir do contraste com a identidade nacional, tida como expressão do “normal” e do “regular”, em oposição ao “absurdo” e ao “nonsense” caracterizado pelo Outro.

A série Meanwhile in… surgiu em fevereiro de 2010, a partir de uma interpretação sobre a Austrália como o lugar onde tudo está de cabeça para baixo. Nas imagens iniciais, podemos ver representações de figuras (notadamente de automóveis) de ponta-cabeça, e também alusões ao calor e aos animais selvagens da fauna local. Como vários memes que surgem no 4chan, os usuários rapidamente se apropriaram do conceito para compartilhar mais estereótipos já enraizados sobre diversos países do mundo, seguindo sempre o mesmo formato do original. A leitura é sempre o que está acontecendo nestes países ou como é a vida por lá ‐ claro, sob um ponto de vista que exotiza e muitas vezes discrimina o Outro.

Limor Shifman4 reconhece que as traduções são fundamentais para a construção de pontes interculturais, ou seja, as “piadas internas” contidas nos memes precisam ter sentido compreensível em diferentes culturas. Como vemos nos exemplos apresentados, estamos diante de uma série de ideias que são propagadas mundialmente sobre determinadas culturas, mas este humor ‐ que investe, diga-se de passagem na opressão e na exotização de seu objeto ‐ só é divertido para o criador desses estereótipos. Quem é estereotipado, naturalmente, nem sempre acha graça. Tampouco quem sequer reconhece o sentido daquele estereótipo, pois não compartilha de laços culturais ou afetivos nem com o emissor, nem com o objeto da piada.

Quando falamos de países ou nacionalidades, os estereótipos comumente mobilizados logo nos saltam aos olhos. São exaltações ao contraste entre civilização e barbárie, ao passado colonial ou à dependência econômico-industrial, ao caráter autocrático de alguns governos, às diferenças religiosas, ou simplesmente a satirização de marcos culturais e históricos fortes. Os estereótipos, é claro, não são acionados apenas para oprimir. Em alguns casos, eles ajudam também a reforçar identidades coletivas e representações de si, a partir de ações de reconhecimento e solidariedade5. Mas o que notamos nos casos em que este humor que ressalta diferenças culturais a partir de um olhar exotizante está presente é que a piada, normalmente, fala mais sobre quem a conta do que sobre a quem ela se refere. Meanwhile in, por exemplo, reforça estereótipos segundo os quais, na Austrália, existem todas as espécies mais estranhas de animais, ou que os russos ainda vivem um sentimento de rivalidade herdado do período da Guerra Fria, ou que na Itália “chove” pizza – porque, afinal, é tudo o que a cultura italiana teria produzido de útil para o mundo.

Bauman6 aponta em seus estudos que o poder, a partir da popularização da internet, tornou-se extraterritorial e que o espaço agora é atravessado, isto é, encurtado. Mas o humor do 4chan ‐ assim como de outros SRSs ‐ é sintoma de que este atravessamento tem um forte componente político, pois estamos tratando de ideias carregadas de representações “grosseiras” e propagadas por um gênero midiático veloz e implacável, os memes de internet. Afinal, quem tem o poder de disseminar estes estereótipos?

A partir deste ponto, é importante atentarmos para as dicotomias que nasceram da relação dos países colonizadores perante os colonizados no período do Pós-Colonialismo. O Sul Global nos aponta diferenças sociais, culturais e territoriais de lugares que estão submetidos às relações de poder encontradas na oposição entre Norte e Sul. É bom lembrar que “Norte” e “Sul” não são categorias que se referem necessariamente à posição nos mapas geográficos (mesmo porque até isso é convencionado), mas, sim, à autoridade e à subalternidade que se estabelecem quando pensamos em quem é detentor de poder em diferentes situações, entre elas, o “fazer rir”. Os memes que aqui apresentamos não necessariamente produzem sentido que cause algum malefício direto ou violência evidente, mas em muitos casos estamos diante de uma interpretação que rebaixa as culturas ou países ditos “em desenvolvimento”, provocando uma leitura tacanha, muitas vezes pejorativa. As representações imagéticas criam um novo “Norte vs. Sul”, onde quem cria o estereótipo submete quem é estereotipado, e reforça a norma a partir de si.

A facilidade em se criar e compartilhar conteúdos digitais estimula também a propagação de visões reducionistas e preconceituosas de forma mais rápida. Mas as ideias disseminadas por meio da internet ‐ mesmo aquelas camufladas sob a veste do humor ‐ devem ser levadas muito a sério. Os memes cotidianamente nos chamam a atenção para disputas políticas e sociais subterrâneas, propagadas através de conteúdos encarados de forma despretensiosa, como piadas. Enquanto isso, no mundo real, a piada nem sempre tem graça…

* Esse artigo é uma adaptação do trabalho apresentado para a disciplina de “Mídia, Espaços e Territórios Virtuais”, no curso de graduação de Estudos de Mídias, da Universidade Federal Fluminense.

Dandara Bolada
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