Entre memes e morte, há barreiras representacionais? Propagação digital e (geo)política na web

Em função de diversos conflitos motivados por razões bélicas e políticas locais, o povo sírio tem buscado rotas do Mar Mediterrâneo para se refugiar em outros continentes e países, como forma de escapar das condições adversas que esses confrontos e suas implicações sócio-históricas e políticas imprimem particularmente sobre a população civil.

Uma dessas diversas tentativas de migração trouxe à tona ‐ e à Rede ‐ uma hashtag (#kiyiyavuraninsanlik; em tradução livre: “pessoas sendo entregues pelas ondas do mar”) associada à imagem, abaixo, que deu origem à propagação global de um “evento digital” 01, colocando em foco ‐ e, lamentavelmente, como vítima ‐ um menino de três anos, identificado como Aylan Kurd.

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#Kiyiyavuraninsanlik e seus aspectos de propagação digital

A partir da Abordagem Integradora que Souza Júnior propõe (refletindo três olhares que se complementam: o da Memética, o da Comunicação e, por fim, o da Linguística – de orientação Sistêmico-Funcional, seguindo os preceitos de Michael Halliday), verificamos que a imagem focada, associada à hashtag mencionada, passou a ser utilizada como uma “unidade de propagação”, para dar origem a postagens de diversos internautas, fazendo emergir inúmeras relações, as quais evidenciaram o surgimento de um debate global, na Web, sobre as consequências do contexto bélico e (geo)político sírio, sua repercussão (em alguns casos, internautas acusando outros de “comoção seletiva”) e impactos gerados. Podemos ver, logo adiante, a evolução da propagação do evento em questão, a partir do buscador Topsy.com. Tal evolução, baseada nos princípios meméticos de fecundidade e longevidade por produção, conforme sugere Souza Júnior (adaptando-os e expandindo a proposta pioneira de Richard Dawkins), nos permite visualizar o resultado de 89.692 menções da hashtag no contexto do Twitter, entre os dias 2 (quando ocorreu a fatalidade) e 4 de setembro de 2015.

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Multimodalidade e multimidialidade: acessando as práticas linguístico-midiáticas

A união de imagem e texto deriva construções ou representações multimodais. De acordo com os pressupostos da Semiótica Social associados à Gramática do Design Visual (proposta por Gunther Kress & Theo van Leeuwen) existe uma forma de projetar e representar aspectos ou fenômenos do mundo e das sociedades que o compõem, a partir de duas maneiras de estruturação. Assim, na dimensão de formação/produção e distribuição de linguagem, a união dos modos imagético e textual gera uma construção que nos dá acesso a uma série de escolhas representacionais que são organizadas em uma mensagem a ser interpretada por quem a visualiza. Desse modo, padrões de Sintaxe Visual podem ser reconhecidos. Essa mensagem pode aparecer, em primeiro lugar, construída multimidiaticamente em forma de gifs (imagens com movimento, que repetem algo à exaustão ‐ um tombo, por exemplo) ou vídeos. Em segundo lugar, a mensagem pode emergir com uma natureza multimodal: uma imagem associada a legendas ou expressões iniciadas por uma hashtag (#) etc., que externam, respectivamente, proposições multimodais ou propósitos (sentidos produzidos), os quais surgem de funcionalidades (i.e. modos de funcionar) a serem reveladas.

A dimensão de produção e distribuição multimodal de linguagem associada à dimensão (multi)midiática de produção e distribuição por mídias digitais (no caso das imagens, destaca-se como prática o uso de manipuladores como o Photoshop) oferece a internautas modos de construção e distribuição de natureza linguístico-midiática, portanto, que são repassados de tela em tela, sendo identificados como um grupo de memes da internet. Esse grupo ou complexo de memes, na literatura específica, também é chamado de “memeplexo”, conforme Susan Blackmore, Limor Shifman e Souza Júnior argumentam. Entretanto, Shifman parece considerar, de uma perspectiva descendente (top-down), o conjunto de unidades de propagação disseminadas como um memeplexo (um conjunto de textos ‐ tomando-os como a série de imagens produzidas, por exemplo), enquanto que Souza Júnior, baseando-se em Blackmore, considera (de uma perspectiva ascendente ou bottom-up) tanto o conjunto de estruturação e indicação de propósitos identificados através de práticas linguístico-midiáticas que dão forma a essas unidades de propagação (modos de construir imagens ou hashtags e seus sentidos, por exemplo), bem como os tipos de relação (a quem/que se dirige; em idioma nativo ou estrangeiro?) e os caminhos de disseminação (online, offline ou ambos; local ou global?) os quais esse dado conjunto demonstra construir quando este começa a ser distribuído, gerando ondas de propagação mais amplas na Web, ou migrando para fora desta.

Quando internautas participam do processo de difusão de um evento digital, as informações de construção e de indicação de propósito/proposição reveladas por esse memeplexo (carregado e difundido através de unidades de propagação) podem ser alvo de apropriação, servindo para gerar cópias que podem seguir o padrão através do qual uma imagem surgiu (atuação majoritária do princípio da fidelidade, concebido por Richard Dawkins), ou tal padrão pode ser modificado (atuação majoritária do princípio de design ‐ proposto por Daniel Dennett ‐ seguido dos princípios de funcionalidade e alcance linguístico, sugeridos por Souza Júnior).

Alguns exemplos coletados ilustrarão modificações de padrões observadas no processo de difusão do evento em foco. De início, pelo princípio de fidelidade, uma imagem fixa é dialogicamente (no sentido de Mikhail Bakhtin) usada para fazer menção ao menino, porém, esta passa a ser recontextualizada, tendo, primeiramente, sua estruturação reformulada (maior intensidade do princípio de design que restringe a atuação em escala ampla da fidelidade). Isso abre espaço para a evolução da representação original, expandindo-a em termos de construção multimodal. Como consequência, no nível da produção de sentidos, essa imagem é ressignificada (pela atuação conjunta dos princípios de design e funcionalidade), se expandindo em termos de proposição e, por consequência, de temática (pela atuação do princípio de alcance linguístico).

Pelas bases da Semiótica Social e da Gramática do Design Visual, a partir de padrões de Sintaxe Visual, dois grupos de processos de representações visuais podem ser reconhecidos na propagação do fenômeno em questão: (a) Narrativos (indicam elementos agindo sobre outros); (b) Conceituais (indicam elementos que não estão agindo sobre os outros ‐ eles aparecem sendo alguma coisa; classificados/caracterizados como algo; ou tendo identidades a eles atribuídas).

Na dimensão narrativa, como podemos ver nas figuras, abaixo, respectivamente, a imagem do menino sírio foi identificada a partir das categorias gramaticais visuais, a seguir, revelando suas funcionalidades: (a) tem realçada sua condição de Meta (i.e. como vítima, sendo alvo dos braços de um anjo); (b) é retratado como Agente (i.e. ressurge como espírito e ergue seus braços para o anjo; (c) aparece como um Fenômeno a ser observado (i.e. é objeto da ação do olhar de outros).

Revelador, também, o surgimento de postagens que expandem o padrão inicial de funcionalidades da imagem que origina este evento digital. Em proposições multimodais de confrontação, os internautas reforçam a condição de vítima do menino a partir da introdução daqueles que, no entendimento desses usuários, respectivamente, Líderes Mundiais e Estado Islâmico, estariam agindo somente como observadores da morte da criança (i.e. surgem como Experienciadores, em termos de funcionalidade, conforme categorização a partir da gramática visual). Mais à frente, vemos que essas imagens demonstram evoluir em seus modos de construção e indicação de proposições porque deixam de apontar para as consequências e passam a se direcionar para quem ‐ direta ou indiretamente ‐ causa os conflitos de natureza bélica e política na Síria, de acordo com o posicionamento dos internautas.

Por outro lado, na dimensão conceitual, o menino sírio é retratado sendo algo, caracterizado, comparado, classificado, e, por fim, definido a partir de atributos que aparecem conectados à criança nesse segundo tipo de representação visual e suas proposições multimodais propagadas. Isto é, a imagem passa a desenvolver algumas funcionalidades, a saber: (a) Portador de atributos simbólicos (o menino é transformado em um anjo, carregando em suas costas, agora, as asas como um atributo, que assim passam a defini-lo); (b) Portador de atributos possessivos/possuídos (um berço e objetos infantis, introduzidos como atributos, indicam uma proposição analítica, a qual objetiva ‘devolver’ ao menino o que lhe foi retirado com os conflitos: sua condição/identidade primária de criança, modificando-se o Cenário bélico para outro infantil, onde o menino aparece reinterpretado; (c) como Subordinado, em função da cerca e do muro como delimitadores de dimensões ou planos, o menino surge em uma proposição multimodal classificacional e hierarquizante, sendo re(a)presentado como rebaixado, forasteiro e excluído pelos povos de todos os continentes (Superordinados) não só no âmbito geopolítico, como também no plano existencial (vivos X mortos).

Do ponto de vista da Memética, a atuação conjunta dos princípios de design, funcionalidade e alcance linguístico gera impacto que se reflete no princípio de evolução comunicacional adaptado e expandido da proposta de Raquel Recuero, isto é, o alcance midiático global do fenômeno. Sendo assim, por essas diversas frentes de princípios reunidas e que se complementam em uma análise pautada na Abordagem Integradora, o evento digital pôde ter ampliada e mapeada sua capacidade de gerar cópias (i.e. fecundidade – via criação de imagens meméticas e expressões iniciadas por hashtags, por exemplo), bem como seu tempo de evidenciação (i.e. longevidade) na Web.

#Kiyiyavuraninsanlik: brevíssima análise da repercussão em sites da imprensa tradicional

Ao buscarmos as imagens meméticas que serviram como unidades de análise deste caso brevemente investigado, nos chamou a atenção a maneira como os sites listados nos resultados de nossas pesquisas não apresentaram o termo “meme” para identificar o surgimento do evento digital gerado pela disseminação dessas representações multimodais. Abaixo, comparemos as duas tentativas de busca feitas, respectivamente, sendo que a primeira continha a associação entre os termos “meme” + “menino sírio” – para forçar o buscador a mostrar em seus resultados a palavra “meme”; e outra pesquisa, sem o termo em questão:

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Nesse sentido, percebemos que ainda persiste na mídia tradicional uma concepção equivocada (do ponto de vista epistemológico da Teoria Memética) e um discurso ainda carente de fundamentação sobre essa Teoria. Dessa maneira, revela-se e parece se perpetuar um ideário indicando que memes da internet propagariam unicamente mensagens de cunho humorístico ou de diversão. Na primeira busca, ilustrada acima, as palavras que comumente apareceriam descritas como “memes”, se o conteúdo do evento examinado não envolvesse vítimas fatais, são substituídas pelos termos: “ilustrações” e “homenagem”. A utilização dos verbos associados à ação de propagar as imagens analisadas se mostrou, também, bastante tátil: “homenagear”, “ecoar” e “publicar”. Já na segunda busca, os termos de substituição para “memes” foram: “imagem”; “ilustração” e “foto”. Os verbos apresentando usos mais comumente associados ao temo “meme” foram: “homenagear”; “viralizar”; “espalhar-se”; “divulgar” e “ecoar”.

Por fim, memes da internet, na nossa concepção, são vistos como grupos ou conjuntos de informações que são construídos e propagados em forma de práticas linguístico-midiáticas. Assim sendo, como um composto de semioses, a multimodalidade associada à (multi)midialidade permite que uns projetem e que outros reconheçam o conceito de morte no bojo de surgimento do evento digital brevemente analisado aqui. Portanto, se memes da internet podem estar sujeitos a ter em sua composição e em seu processo de difusão, como já mencionamos, acima, princípios linguísticos de evolução, além, naturalmente, daqueles de natureza memética e midiática; nada impede que o tema morte (ou [geo]política, terrorismo, globalização, migração, etc. como temáticas em concorrência de foco) seja abordado nos eventos digitais em que tais fenômenos passam ser desencadeados, possibilitando que seus memes possam ser reconhecidos. As imagens analisadas aqui são construídas, de fato, com base em um grupo de memes. Do ponto de vista científico, o elemento morte (e toda a carga afetiva que este mobiliza) não está fora do alcance representacional e, principalmente, ideológico que a difusão horizontal02 e pluralista de memes da internet e seus respectivos eventos digitais podem abrigar, ainda que determinada cultura local ou os membros que tenham como papel social registrar os eventos concernentes a esta se mostrem avessos a essa aproximação.

Jaime de Souza Júnior
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Mestre em Letras com ênfase em Linguística (Uerj). Autor de "Memes pluralistas: explorando mídias sociais, propagações digitais, linguagem, marketing e ensino".
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Sobre Jaime de Souza Júnior

Mestre em Letras com ênfase em Linguística (Uerj). Autor de "Memes pluralistas: explorando mídias sociais, propagações digitais, linguagem, marketing e ensino".