A batalha das hashtags pró e contra o governo no carnaval 2019

No dia 3 de março de 2019, domingo de Carnaval, entre 15h e 20h, a hashtag #EiBolsonaroVaiTomarNoCu chegou e permaneceu no topo dos trending topics do Twitter. Em seguida, ocupando o segundo lugar do ranking, foi identificada a hashtag #BolsonaroTMJ, que em algumas horas caiu para o quarto lugar.
 
A primeira hashtag recolheu uma enxurrada de vídeos amadores de foliões de diversas regiões do país que gritavam em uníssono o xingamento ao presidente Jair Bolsonaro, no poder desde 1º de janeiro. Por conseguinte, a hashtag “Bolsonaro Tamo Junto”, ao que parece, não foi proveniente de uma manifestação popular espontânea, como a do Carnaval, mas de uma estratégia intencional de apoio ao presidente.
 
Os conteúdos publicados no Twitter, coletados por meio do software R Studio, entre as 20h às 21h daquele mesmo dia, compuseram uma amostra de 34.671 tuítes vinculados à hashtag #BolsonaroTMJ, e 70.116 tuítes à #BolsonaroVaiTomarNoCu. A observação atenta destes conteúdos e de todas as hashtags mapeadas permitiu identificar que, de janeiro a junho de 2019, ao menos uma vez na semana, surgiram hashtags pautadas em alguma agenda política em voga no Brasil.
 
Além disso, também foi possível identificar, que em todas as vezes que uma hashtag de oposição ou protesto ao governo atingia os cinco primeiros lugares do ranking, alguma hashtag de apoio ao governo aparecia no encalço, normalmente com algum conteúdo de apoio explícito, ou fazendo menção à hashtag detratora. Como se fosse uma batalha entre as hashtags, de apoio e oposição pelo topo dos trending topics do Twitter. Por exemplo, um dia antes, em 2 de março, já havia uma outra disputa instaurada entre #LulaGigante e #GiganteTáPresoBabaca.
 

 
Uma hashtag chega aos trending topics através de um algoritmo que segue, basicamente, três critérios01: primeiro, precisa ser popularizada por uma quantidade expressiva de diferentes usuários em um espaço curto de tempo; segundo, não ter sido popularizada no passado, a não ser que volte com muita relevância; e terceiro, não pode conter palavras de incitação ao ódio ou palavrões; no entanto, como visto, #BolsonaroVaiTomarNoCu mesmo contendo palavras de baixo calão chegou ao topo do ranking.
 
Segundo Malini e colaboradores (2016, p. 392), as hashtags funcionam dentro de uma dinâmica de “folksonomia“, ou seja, quando um conteúdo na rede é nomeado e classificado através de uma tag, assumindo assim o papel de “concatenadoras de narrativas”. De acordo com os autores, no Brasil, as hashtags de disputa política ganharam maior expressividade depois das manifestações de junho de 2013, que abarcou diversas agendas políticas oriundas de diferentes movimentos sociais.
 
As hashtags #EiBolsonaroVaiTomarNoCu e #BolsonaroTMJ, no entanto, apontam para um comportamento político diferente do de 2013. Mais polarizada, a disputa política atual revela nas hashtags conteúdos de desaprovação ao governo que se baseiam em algum enquadramento político mesclado com elementos culturais e populares, rapidamente combatidos com conteúdos de apoio ao presidente e seus pares, viralizados por humanos, robôs, ou, ainda, por ciborgues, humanos auxiliados por robôs.
 
Analisar o comportamento social por meio de hashtags é uma forma de mostrar que as discussões em ambientes online possuem características singulares em comparação com outros ambientes sociais. Nisso, questões como disputa ideológica e formulação de um ambiente deliberativo voltam à tona e possibilitam novos debates para a literatura científica. Por exemplo, as manifestações contra e a favor do novo governo brasileiro não se resumem ao período de carnaval, algumas hashtags resgataram debates envolvendo disputa ideológica, como #CorNaoTemGenero e #rosaeazul, oriundas das declarações polêmicas da ministra da Mulher, Família e Direitos humanos, Damares Alves, que retomaram a controvérsia acerca da ideologia de gênero. Outro exemplo foi a #EscolaLivre, que surgiu depois da indicação de Ricardo Vélez Rodriguez ao Ministério da Educação, associando-se a controvérsia a respeito do projeto Escola Sem Partido.
 
Para Rizzotto, Saraiva e Nascimento (2019), a partir do ativismo digital proporcionado às lutas sociais pela internet, o Twitter tornou-se o centro do “ativismo de hashtag“, que, segundo as autoras, é “derivado do ciberativismo” e “acontece quando um grande número de postagens aparece nas mídias sociais apresentando alguma reivindicação social ou política agrupadas pela mesma hashtag”. Ao analisar a hashtag #EleNão, Rizzotto, Saraiva e Nascimento (2019, p. 5) dizem que “o Twitter foi utilizado antes como forma de convocação às ruas; e durante como forma de apoio a elas, ou seja, para além do seu uso informativo, os ativistas utilizam a rede como registro de sua participação – e, portanto, de pertencimento – em uma ação coletiva de tal magnitude”.
 
Enfim, hashtags funcionam como arenas de disputa online, como um espaço aberto ao público em que controvérsias como ideologia de gênero, aborto, religião na política, presença das mulheres em lugares de poder, debate ideológico nas escolas, etc. Podem ser retomadas por ativistas políticos, tuiteiros comuns, instituições, celebridades do mundo virtual, entre outros, quase sempre na tentativa de provocar o que Kies (2016) chama de deliberação online ou web-deliberação. Até mesmo porque o próprio Twitter tem sido uma plataforma utilizada por certa elite política com fins bem específicos na direção de uma mobilização interessada.
 
 

Referências

 
KIES, R. Deliberação Online. In: Democracia Digital: publicidade, instituições e confronto político. Org: Ricardo Fabrino Mendonça, Marcus Abílio Pereira, Fernando Filgueiras. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2016.
 
MALINI, F. A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Org: Fábio Malini e Henrique Antoun. Porto Alegre: Sulina, 2013.
 
RIZZOTTO, C., SARAIVA, A.; NASCIMENTO, L. #Elenão: conversação política em rede e trama discursiva do movimento contra Bolsonaro no Twitter. In: Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 27, 2019. Anais do 27º Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. Porto Alegre: Compós, 2019.
 

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Sobre Primeiramente Rangel

Normalmente acha graça até do que não deve. Por incrível que pareça, Primeiramente Rangel é formado em Teologia, mas já faz um tempo que trocou a batina pelo curso de Comunicação e por estudos em Linguística e Análise do Discurso. Atualmente é mestrando em Comunicação na UFF e pesquisa sobre memes de Michel Temer, então, pufavô, não faz meme comigo, não.